Bases Bíblicas: Romanos 8.1-39; Lucas 18.9-14; Mateus 25.31-46
Durante os últimos anos de sua vida o Rev. Samuel Wesley, por 39 anos pároco de Epworth, dizia aos familiares e íntimos: “o testemunho íntimo é a maior prova do cristianismo”, e confessava-lhes que não tinha nenhuma dúvida sobre sua salvação. Mas se esta experiência e testemunho eram comuns na Inglaterra no começo do Século XVIII, a evidência nos é bem escassa.
João Wesley, filho do Samuel mencionado acima, começou a se preocupar coma a certeza da sua salvação, através do testemunho do Espírito, pelo menos em vésperas da experiência de Aldersgate, pois ele transcreveu no seu diário uma parte de uma carta que escrevera a um amigo anônimo provavelmente no mesmo dia da sua experiência. Ele confessou ao amigo que o espírito de Deus não testemunhava com o seu espírito que Le fosse filho de Deus (Rm 8.16). mas a carta que ele ansiava por essa certeza, aparentemente crendo que fosse possível.
Devemos reconhecer, antes de proceder mais na discussão, que muitos pensadores protestantes usam a expressão “testemunho do espírito” em um sentido bem diverso aquele referido acima. Para eles, a doutrina tem haver com a qualidade “autenticante” da verdade da Palavra de Deus. Como se sabe que aquilo que achamos registrado na bíblia realmente é a voz de Deus? A resposta seria: “O Espírito santo testemunha ao nosso íntimo que o é”. Não é necessário, portanto, que qualquer autoridade superior (como a Igreja) autentique para nós essa verdade. Em termos mais populares, essa idéia é expressa num hino muito popular: “Vencendo vem Jesus” (Nº 312 no Hinário Evangélico). Mudando um pouco a ordem e algumas palavras, encontramos o seguinte: “quando a voz do salvador chega à alma, ela logo reconhece que é a voz do seu Senhor” (Jesus). Por que a alma reconhece que é a voz de Jesus e não do homem, da mulher ou ainda do demônio? A resposta seria: “Porque o Espírito de Deus lhe revela isso”.
Como o leitor perceberá o conceito que acabamos de expor muito brevemente aponta para um outro tipo de segurança ou certeza – a da verdade da palavra de Deus. a doutrina que preocupa João Wesley (e que fora vivenciada pelo seu pai Samuel) tem a ver com a certeza da salvação. É essa última acepção do testemunho do espírito santo que nos ocupará durante o resto do presente estudo. Como vimos no estudo anterior, Wesley descreveu seu estado de graça em termos semelhantes aos de Paulo em romanos. Após sua experiência de fé viva em Cristo Jesus, Wesley pode testemunhar estar livre de condenação por estar em Cristo. Afirmou seu novo estado em palavras quase idênticas às de Paulo: “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou do pecado e da morte” (Rm 8.2). Uma boa parte do mesmo capítulo 8 de Romanos trata do significado de o remido ser filho de Deus. Valeria a pena ler com cuidado todo o capítulo. Destaquemos aqui apenas o final do verso 15 e o verso 16 por inteiro: “… Mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Abba, pai. O mesmo espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”.
No parágrafo central da narrativa da sua experiência religiosa, depois de afirmar ter recebido a fé (confiança só em Cristo), Wesley diz: “… uma segurança me dói dada que tirara meus pecados, sim os meus, e me salvou a mim da lei do pecado e da morte”. No trecho referido, ele não emprega o termo “testemunho do Espírito”; sua palavra é segurança. É muito evidente, no entanto, que se trata do mesmo conceito. Para que tenhamos plena compreensão da doutrina do Testemunho do Espírito é necessário termos alguns pontos bem claros. Tentarei dizê-los concisamente.
1. A experiência da segurança veio para Wesley como um acompanhamento da sua apropriação pessoal da fé (confiança) em cristo e as conseqüências dessa fé; a saber: a justificação (o perdão dos seus pecados) e o novo nascimento (a transformação íntima, fazendo-o vitorioso sobre o pecado). Wesley entendeu que o mesmo geralmente aconteceria com todos os que recebessem o dom da fé. Só anos mais tarde é que ele chegou a perceber que nem sempre aconteceria assim. Admitia que, em alguns casos, por motivos não bem claros, pessoas que dava toda a evidência de fé genuína e perdão e transformação que a acompanham não tinham um claro testemunho do Espírito. Mesmo assim, ele continuava a insistir que tal segurança era uma parte normal da experiência de todo cristão e cristã, não apenas para algumas poucas pessoas especialmente privilegiadas.
2. Mas o que é testemunho do espírito? Que é o Espírito testemunha com o nosso espírito? Conforme Paulo em Romanos 8.16, o Espírito afirma “que somos filhos de Deus”. É por isso que, por exemplo, no desenho apresentado no início do capítulo VII, o testemunho do Espírito só poderia vir depois da fé. Pois o espírito testemunha, com efeito, que já temos a fé salvadora, daí nos tornando filhos e filhas de Deus. • O testemunho do Espírito se refere a um estado atual, presente. Não é uma promessa de algo que deverá acontecer no futuro, mas de algo que a gente vivencia desde o momento em que recebe a fé. • Também não é a garantia de quem crê neste presente momento necessariamente vai perseverar até o fim da vida. Metodistas admitem a possibilidade de que alguém, mesmo tendo uma verdadeira e vital vivência com Cristo, possa cair da graça. O desfio então é marcharmos sempre em busca da maturidade!
3. Será possível testar o testemunho a fim de saber com certeza que o testemunho vem de Deus?
a) Há o testemunho do nosso próprio espírito, isto é, nós podemos fazer por nós mesmos uma auto-avaliação. Podemos comparar o nosso “antes” com o “depois”. Wesley, por exemplo, dava muita importância à paz com Deus que passou a gozar, em contraste com o antigo sentimento de culpa e de condenação, e também sua vitória sobre o pecado, quando antes quase sempre fracassava.
b) Há também o testemunho da comunidade da fé, o que é que a comunidade observa no novo convertido ou na nova convertida? Houve verdadeira mudança na pessoa para melhor? Seu relacionamento com o semelhante passou a ser regido pelo amor e solidariedade? Sua participação na própria comunidade de fé tomou novas feições? As disciplinas de oração e estudo da Bíblia passaram a ter um lugar na sua vida, etc?
c) Havia prova absoluta? Não, se se deseja uma prova matemática. Mas quando o próprio Espírito de Deus fala ao mais íntimo do meu coração que Deus me ama em Cristo e me adotou como filho, quando a minha consciência não me acusa, mas pelo contrário, me mostra a transformação que Deus realmente obrou em mim, e quando a comunidade de fé detecta em mim reais frutos desta fé, por que duvidar do Testemunho?
Para meditar / refletir / fazer / aprofundar
1. O grupo considera a doutrina do testemunho do espírito importante? Negligenciada? Mal-interpretada pela maioria? Praticada?
2. Para cada um considerar individualmente: • Você sente que tem essa segurança na sua vida cristã? • Gostaria de ter essa certeza? Conhece alguém que parece ter?
3. Formular com o grupo uma lista de testes para autenticar a experiência do testemunho do Espírito. Consultar os subsídios no estudo, mas incentivar o grupo a fazer uma lista que seja realmente do grupo.
4. O que significa para você ser filho(a) de Deus neste Brasil em que vivemos? A pessoa tendo a certeza de sua salvação agiria daquele modo nesta situação em que vivemos?
5. Analisar com o grupo a 3ª estrofe do hino nº 82 do Hinário Evangélico. É um exemplo da representação poética da rica obra do Espírito Santo. Este hino tem sido atribuído a Carlos Wesley, mas a autoria não é certa.
6. Analisar com o grupo o hino nº 341 do Hinário Evangélico. Este hino reflete bem a doutrina do testemunho do Espírito? A segurança mencionada neste hino é aquela que Wesley sentiu na sua experiência em Aldersgate?
7. Como diferenciar orgulho espiritual da firme segurança da nossa salvação em Cristo Jesus? Por exemplo: o fariseu em Lc 18.9-14 tinha certeza da sua salvação ou a segurança de que seu estado espiritual era satisfatório? Em Mt 25.31-46, quem tinha “certeza” de estar dentro dos princípios do Reino de Deus? fazer um confronto destes dois textos com a posição wesleyana de segurança conforme os subsídios do estudo.