O conceito metodista e wesleyano de santidade muito pouco tem a ver com a vida monástica a que tantos daqueles(as) apelidados santos(as) estão ou foram vinculados. Ilustremos o conceito por William Wilberforce , líder do parlamento inglês na luta anti-escravagista. Depois de uma marcante experiência religiosa, Wilberforce decidiu abandonar a política para poder cultivar a vida “espiritual”. João Wesley, inconformado com a decisão do parlamentar, o persuadiu a expressar a sua fé não na fuga da vida política e da luta humanitária, mas exatamente através de uma luta sem tréguas contra o mal da escravidão. Na última carta que Wesley escreveu, apenas uma semana antes da sua morte, ele instou-o: “Prossiga, no nome e na força do poder de Deus, até que mesmo a escravidão norte-americana (a mais vil que vira o sol) desapareça perante ele”.
A santificação, então, embora exija as tradicionais disciplinas da vida religiosa- oração, meditação, estudo bíblico, plena participação na comunidade da fé e na sua vida cúltica- não afasta o cristão e a cristã do povo, suas lutas e seu sofrimento. Pelo contrário, conduz à identificação, à solidariedade e ao engajamento. A mesma carta que citamos acima expressa bem essa vinculação do religioso / espiritual ao engajamento / ação. Citamos um pouco mais do seu conteúdo:
A não ser que Deus o tenha levantado para isso mesmo, a eliminação da escravidão, você será destruído pela oposição de homens e demônios. Mas se Deus for com você, quem será contra você? Estarão todos eles juntos mais poderosos do que Deus? Ó, não se canse de fazer o bem! Prossiga, no nome e na força de Deus…(a carta datada de 24/02/1791, na sua íntegra, se encontra em Letters of the Rev. John Wesley, A. M., Vol VIII, p.265). Que dizer, então, do sentido da santificação no pensamento de Wesley?
1. Em primeiro lugar, não uma doutrina peculiar a Wesley e aos metodistas, muito embora lhes seja característica. Isto é, não é uma doutrina arcana, esotérica, escondida nas entrelinhas de um ou dois versículos bíblicos ou ainda divertimento intelectual de um teólogo esquecido de outrora. Muito pelo contrário, é um conceito muito trabalhado na bíblia, quer no Antigo, quer no Novo Testamento e tema muito encontrado nos escritos dos antigos pais da Igreja. Aliás, Wesley costumava dizer que os metodistas não introduziram novidade alguma, e sim cultivaram as doutrinas consideradas, desde os primórdios, essenciais.
Por isso a fundamentação bíblica, tanto da santificação quanto da perfeição cristã, doutrina muito ligada àquela, se encontra um tanto espalhada pela bíblia. Entre as passagens mais citadas a propósito são as seguintes, as quais devem ser lidas agora com todo cuidado. Apenas por economia de espaço não as transcrevemos na íntegra.
Mateus 5.43-48 (Lv 11.44-45). Na passagem de Mateus 5.43-38 o aspecto da perfeição mais destacado é a perfeição em amor.
Filipenses 2.5-11 – “ter a mente de Cristo”, a mente de abnegação, de esvaziamento de si, tudo para beneficio de outrem.
Efésios 5.11 – andar uniformemente como Cristo andou ou, numa expressão mui conhecida, a imitação de Cristo. Convém notar aqui que um dos livros favoritos de Wesley é um que ele próprio publicou várias vezes foi Kempis, a Imitação de Cristo ou, como Wesley preferia chamá-lo, o Padrão Cristão.
Hebreus 12.10 e 14 (em conjunto com MT 5.8). Wesley se convenceu que a santificação, incluindo a pureza de coração, era essencial à salvação final 9º breve comentário dos trechos é apenas sugestivo de um debate que poderia ser muito mais aprofundado).
2. A santificação é obra do Espírito Santo
Mas, para Wesley, o Espírito Santo atua em todos os aspectos do processo de redenção humana. Basta agora apenas ressaltar os mais importantes momentos dessa atuação. O desenvolvimento prático da sua doutrina mostra que a crença de Wesley na Santíssima Trindade ia além da mera aceitação formal de que na “Divindade, há três pessoas da mesma substância, poder e eternidade…” (Artigo de Religião nº 1).
A consciência da nossa natureza pecaminosa (autoconhecimento) é, em grande parte, obra do Espírito Santo( Jo 16.8-9). É do Espírito Santo que testemunha como o nosso espírito que somos filhos e filhas de Deus (Rm 8.16). E, andando não segundo a carne, mas segundo o espírito habitando em nós, processa-se em nós a santificação (veja aqui Rm 8.1-17; I co 6.19).
3. A santificação era considerada por Wesley como o processo de aperfeiçoamento da vida cristã em todos os aspectos ou, em outras palavras, o crescimento em graça. O modelo humano para o processo de santificação é Jesus, o qual, por sua vez, foi a mais perfeita revelação de Deus. Portanto, Wesley enfatiza muito a aquisição da mente de Cristo (Fp 2.5-11) e o andar uniformemente como Cristo andou (Ef 5.1-2; At 10.38). Ainda mais insistente Wesley falava da santificação (e de perfeição cristã) em termos de amor. Jesus, o Filho unigênito de Deus, veio revelar o pai (Jo 1.18). Revelou-O como Deus de amor através do seu próprio ato de amor mais dramático (Jo 15.15), e deixou como mandamento a ordem inequívoca: “Que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei” Jo 15.12 (todo trecho Jo 25.9-17; 10.11; Mt 20.28). O processo leva à pureza de coração, sem igual ninguém verá a Deus (Hb 12.14; MT 5.8).
4. A santificação implica, necessariamente, em obras. No tempo de Martinho Lutero, o cristão ou cristã procurava comprar sua salvação pelas obras meritórias, tornando vã a graça de Deus. Para combater essa tendência tão generalizada, Lutero desprezava expressões práticas da fé, na forma de preocupações com os necessitados e justiça aos oprimidos. Mas sua ênfase tão forte no lado da graça, na prática causou o lado das boas obras em favor dos pobres e marginalizados a ser negligenciado. Isto é claro, por exemplo, em algumas famosas Noventa e Cinco Teses de 31-10-1517, tais como (43): “Deve ensinar-se aos cristãos que dar aos pobres é melhor que comprar perdões. (44) Por causa das obras do amor, o amor é aumentado e o homem progride no bem; enquanto que pelos perdões não há progresso da bondade, mas simplesmente liberdade de penas”. (Citado de H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo, ASTE, p 235).
Cremos que no Metodismo há um saudável equilíbrio entre fé e obras (estas como fruto da fé e não o preço da salvação), justificação (princípio protestante) e santificação (princípio católico). Já mencionamos que existem teólogos metodistas que vêem a justificação pela fé como a doutrina central e básica de Wesley. Outros, como Sangester, vêem a perfeição cristã como aquele centro ao redor do qual tudo mais gira. Pessoalmente, eu creio que a grande paixão doutrinária era a Redenção, processo no qual os pólos justificação pela e santificação / perfeição estão em constante tensão dinâmica.
5. A santificação, que é um processo, prepara o caminho para a perfeição cristã, o que ocorre num instante. O grande ponto de convergência entre a santificação e a perfeição é o AMOR. As diferenças principais devem ser examinadas, mas reservaremos isso para o próximo e último estado desta série.
Para meditar / aprofundar / trocar idéias / fazer
1. Verificar bem o conteúdo deste estudo sobre a santificação anotando sua natureza e suas conseqüências. À luz deste estudo, trocar idéias no grupo:
- Como este estudo pode ajudar os metodistas a caminho da maturidade?
2. Formular com o grupo uma definição da santificação que seja uma expressão adequada daquilo que vocês pensam sobre o assunto.
3. Para completar (individualmente): – Ao tomar conhecimento deste estudo de que Wesley pensava que cada cristão e cada cristã é chamado para uma vida de santificação, eu…
- No metodismo, os dois pólos justificação pela fé e santificação estão em constante tensão dinâmica. Em nossa igreja local este equilíbrio está funcionando nos diversos ministérios?
4. Para o grupo completar finalmente: – Para nossa igreja local levar mais a sério essa doutrina de santificação é preciso: _______________________________________