Bases Bíblicas: Atos 22.1-21; Mateus 16.13-18; João 3.1-15; II Coríntios 5.17; Romanos 8.15; João 1.12, 8.32-26; Jeremias 31.33; Ezequiel 11.19; Salmo 19.12-13; Efésios 4.15; I Coríntios 3.1-2; Isaías 1.18; Lucas 19.1-10.
Um dos conceitos mais ricos de significado no que se refere ao processo da redenção humana é o do Novo Nascimento, também chamado de Regeneração. A passagem bíblica chave é a conversação entre Jesus e Nicodemos, em João 3.1-15. na Bíblia encontram-se outros termos que realmente se referem à mesma ação divina, como “nova criação” (II co 5.17), adoção como filhos e filhas de Deus (Rm 8.15, Jo 1.12); e ainda libertação (“a liberdade do filho de Deus”, Jo 8.32-36). Mencionamos este detalhe para que seja claro que há diversas maneiras igualmente legitimas para tratar da doutrina em pauta. No presente estudo, vamos desenvolver o conceito principalmente mediante o uso do termo “Novo Nascimento” e de termos congêneres.
Falamos no estudo anterior da fé como porta que dá acesso à justificação (perdão e consequentemente paz com Deus). Wesley costumava dizer que a justificação é algo que Deus faz por nós (for us, em inglês), assim estabelecendo um novo relacionamento entre Ele e nós; de réus passamos a inocente, para quem não há mais condenação. Mas conforme um hino que muito cantamos, “Tu não somente perdoa purificas também, ó Jesus” (Hino Evangélico, nº 36). Esse processo de purificação e transformação nós chamamos de “Novo Nascimento”. Nas palavras de Wesley, o Novo Nascimento é o que Deus faz em nós.
O Novo Nascimento, no sentido da transformação que Deus efetua no coração e na vida doa homens e mulheres, não é um ensino limitado ao Novo Testamento. É também um elemento da visão profética, explicitada por tais promessas como:
- Novo coração de carne em lugar do velho, de pedra (Ez 11.19);
- Nova aliança, não escrita em tábuas de pedra, mas escrita no coração (Jr 31.33);
- Pecados como a escarlata se tornam brancos como a neve (Is 1.18).
O tema, retomado no Novo Testamento, fala do avarento coletor de impostos, Zaqueu, transformado em benfeitor; do covarde Simão transformado em Pedro, a rocha; e de Saulo, o perseguidor, em Paulo, o apóstolo às nações, e de muitos outros.
Essa doutrina, tão evidente na Bíblia, foi muito enfatizada pelos pietistas, os quais, liderados por Spencer e Franke, reagiram contra a aridez da escolástica luterana no século XVII, com sua preocupação com a exatidão doutrinária, isso havia levado a uma ‘religião de cabeça’ e muito pouco “de coração”. Para os pietistas, o verdadeiro cristianismo começava com a experiência do Novo Nascimento e se evidencia pela vida transformada. João Wesley foi muito influenciado por esse aspecto do pensamento pietista.
Já descobrimos, nos dois estudos anteriores, que a experiência de Aldersgate afetou a maneira de Wesley entender a fé e a justificação. O mesmo teria acontecido com o Novo Nascimento?
Alguns estudiosos de Wesley entendem que não. Quem assim pensa, geralmente baseia sua posição em fatores como os que se seguem:
- Sua criação em lar rigorosamente religioso, sob os cuidados espirituais da mãe Suzana;
- A pureza do seu caráter ético e suas obras de caridade, mesmo antes de Aldersgate.
Geralmente, quem segue essa linha acredita que o próprio Wesley realmente não deu grande importância à experiência de 24-05-1738, alguns a afirmar que ele nunca se referiu à experiência a não ser uma única vez, ou seja, a narrativa que publicou no seu diário.
Eu não posso concordar com esta opinião, pois, embora reconheça e valorize muito Wesley antes de Aldersgate, estou convencido que Wesley realmente na sua própria avaliação voltou de Geórgia com um virtual fracasso. E, certamente, o momento popular do Metodismo só surgiu após a transformação que ocorreu na vida de Wesley na ocasião de Aldersgate. Eu já examinei esta questão se Wesley falava da experiência depois; demonstrei que, sem dúvida alguma, ele mencionou o fato por diversas vezes ou diretamente ou por alusão, ele provavelmente se referia a esse marco na sua vida (veja Metodismo Brasileiro e Wesleyano, PP 90-93).
É verdade que no parágrafo 14º da sua narrativa ele não falou claramente do Novo Nascimento. Mas nos parágrafos seguintes ele faz diversas menções que deixam claro que uma transformação ocorrera na sua vida. Para mim é significativo que ele, clérigo ( e provavelmente o único clérigo presente numa reunião de leigos) confessou humildemente aos leigos aquilo que ocorria pela primeira vez no seu coração. Também é importante notar que agora, após a experiência, ele pode orar por aqueles que ele tinha como seus perseguidores (MT 5.44). Talvez o mais importante testemunho seja que ele descobriu uma essencial diferença entre seu antigo e o presente estado: antes quase sempre ele era vencido pelo pecado; agora ele sempre vencia.
Aqui vamos introduzir um paralelo com a estrutura do movimento metodista como elaborado por Wesley, o band ou “círculo”. Já tivemos a oportunidade para ver que, logo que as pessoas se despertavam para o verdadeiro arrependimento, estas pessoas já eram aptas a serem arroladas na sociedade da sua cidade e também numa classe. Enquanto continuavam como metodistas eles permaneciam como membros de sociedade e classe. Como já indicamos, uma das funções da classe era proporcionar condições propícias para a edificação e desenvolvimento da Vida Cristã dos membros, visando especificamente à apropriação pessoal da fé pelos mesmos.
Quem recebesse o dom da fé era tido como apto a tornar-se membro de um band, um grupo voluntário de apenas seis pessoas, do mesmo sexo, e um guia. O band era caracterizado pela franqueza absoluta no falar e no escutar. O raciocínio atrás disso era que os outros frequentemente nos conhecem melhor do que nós mesmos. Era norma que cada membro do band se obrigava a falar com total franqueza aos outros, inclusive das suas falhas e defeitos, e ouvir humildemente o mesmo dos companheiros ou das companheiras. Um band passava a ser uma espécie de guarda da alam dos demais.
A participação da vida nesse grupo sem dúvida contribuía à humildade dos seus componentes. O salmista pergunta: “Quem há que possa discernir as próprias faltas?”. E roga: “ Absolve-me das que são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo…” (Sl 19.12-13). Os integrantes dos Bands, os quais procuravam “falar a verdade com espírito de amor” (Ef 4.15, Bíblia na Linguagem de Hoje), não apenas contribuíram à humildade dos comparsas. Também mutuamente se ajudavam a descobrir preconceitos, incoerências e, quiçá, graves defeitos de caráter. Teriam, como veremos um pouco mais adiante, também uma parte muito importante na marcha dos integrantes do band em direção à perfeição cristã (maturidade).
Para meditar / refletir / agir / vivenciar / aprofundar
1. O conceito “Novo Nascimento” é uma figura de linguagem que nos vem da Biologia. Examinar com cuidado os textos João 3.3-4 e I Co 3.1-2. Quais características do Deus da nossa salvação parecem ser características que normalmente identificamos como características femininas?
2. Hoje em dia há uma tendência de muitos em monopolizarem a expressão “nascido de novo”, dando à experiência uma ênfase totalmente individualista. Como deve os metodistas responder a essa situação? Recorrer de novo ao material neste estudo para aprofundar mais esta questão.
3. Em 1744, poucos anos após o começo do movimento metodista, João e Carlos Wesley se reuniram com diversos dos seus colaboradores para tentarem responder a esta pergunta: “Que podemos razoavelmente crer ter sido a razão pela qual Deus levantou o povo chamado metodista?” Notamos que Wesley via os metodistas como um povo e não apenas como certo número de indivíduos! Da reunião de 1744 emergiu a convicção de que Deus havia levantado “o povo chamado metodista” para “reformar a nação, particularmente a Igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre a terra”.
Não queremos sugerir que a auto-imagem dos metodistas se aplicava só a doutrina do Novo Testamento; tinha referência a toda a sua doutrina e vivência. O que estou sugerindo no momento é uma tentativa de examinar a doutrina do Novo Testamento usando a auto-imagem metodista como pano de fundo para isso.
4. Reformular a pergunta feita em 1744: Por que Deus levantou um povo chamado metodista no Brasil hoje? Que resposta seu grupo dará a essa pergunta?
5. Pessoalmente, você gostaria de pertencer a um grupo semelhante ao Band metodista em que há completa franqueza e sinceridade em amor? Um grupo assim seria uma ameaça para você ou seria um verdadeiro apoio para a vivência da fé?