Bases Bíblicas: Romanos 5.1-21; Lucas 15; Romanos 7.1-25; 8.1-2, 1.17; Habacuque 2.4; Efésios 2.8-9; Gálatas 3.11; Hebreus 10.38; João 3.16.
No estudo sobre o arrependimento oferecemos um simples desejo baseado em um sermão de João Wesley, ou seja, a religião cristã representada por uma casa. A partir do presente estudo, deve começar a tornar-se mais evidente porque Wesley comparava a fé com uma porta. No seu entender o novo nascimento, o testemunho do Espírito Santo e mesmo a santificação são comparados ao interior da casa.
Sem descartar o desenho da casa, hoje queremos um esquema mais completo, o que pretende ser um resumo de todos os elementos essenciais da doutrina wesleyana da Redenção. O esquema, que representa o pensamento wesleyano como um círculo, servirá como uma revisão daquilo já tratado e uma previsão do resto que vamos tratar em toda esta série de estudos.
Por ora, bastará notar que alguns dos elementos são eventos que ocorrem num momento, outros são estágios ou processos. O arrependimento tem aspectos dos dois. Geralmente, há um momento marcante quando o Espírito permite que nós nos vejamos como pecadores, longe da casa paterna. Mas, como Filho Pródigo que reconheceu ter pecado contra o céu e perante seu pai, (momento) temos que enfrentar a longa e penosa jornada para casa (processo).
Nos estudos anteriores já examinamos os dois aspectos da criação (imagem de Deus e a queda), a graça preveniente. O arrependimento e a fé. Hoje consideraremos a justificação pela fé, assim como no capítulo anterior enfatizamos a fé, agora o foco será a justificação.
A justificação: doutrina típica da Igreja ocidental (Católica Romana e Protestante).
Talvez valha a pena notar que há dois grandes ramos do cristianismo: os orientais (ou seja, os Ortodoxos) e os Ocidentais (ou seja, Católicos Romanos e Protestantes). Os orientais enfatizam a divinização como o processo da redenção, enquanto os ocidentais tendem a ver a redenção em termos da justificação. Justificação deve ser notado, é um termo da jurisprudência, lembrando o juiz que justifica o réu.
A peregrinação espiritual de Martinho Lutero fora essencialmente à busca de um Deus que lhe fosse gracioso, pois Lutero percebeu que não lhe era possível fazer boas obras suficientes para agradar ou satisfazer a justiça do austero Juiz, Deus. Mas ele descobriu na doutrina da justificação pela fé a essência das Boas Novas de Deus. Não seria necessário que Le, o monge Martinho Lutero, pela mortificação do seu corpo, pelas horas infindas se confessando, pela quantidade de rezas feitas, satisfizesse a justiça de Deus. Bastava confiar sua vida nas mãos de Cristo, cujo sacrifício já era suficiente para satisfazer o pecado do mundo inteiro. Pelo contrário, a justificação de Lutero seria um meio da sua fé em Cristo e não naquilo que ele (Lutero) pudesse fazer.
Fora em sua intensiva busca na Palavra de Deus que Lutero havia achado essa palavra libertadora, mormente em Rm 1.17 e Ef 2. 8-9 (também HC 2.4, Gl 3.11; Hb 10.28).
Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito. O justo viverá pela fé. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.
Essa redescoberta da justificação pela fé abriu caminho para um relacionamento totalmente diferente; isto porque agora ele não via mais em Deus um juiz implacável ou vingativo senão um Deus gracioso e cheio de amor. Não é de se admirar que Lutero chegasse a considerar João 3.16 como o evangelho em miniatura. Assim, a justificação pela fé veio a ser a chave para a interpretação luterana da Bíblia toda, e o fundamento teológico da Reforma Protestante como um todo.
É possível argumentar – como William R. Cannon já fez na sua interpretação da doutrina de Wesley – que a justificação pela fé também seja o cerne da teologia de Wesley. Outros, porém, percebem na perfeição cristã o centro em torno de que toda teologia de Wesley girava. Pessoalmente, tenho uma idéia um pouco diferente que será exposta mais adiante. Por enquanto basta dizer que Wesley é realmente protestante, pela importância que deu à doutrina. Isso tende a confirmar o que já observamos, a saber, que Wesley fora diretamente influenciado na sua experiência religiosa e na sua conseqüente compreensão da fé por Martinho Lutero.
Sem, portanto, ignorar a influência de Lutero sobre Wesley, examinamos agora a linguagem com que Wesley descreve o conteúdo doutrinário da sua fé assim adquirida. Ele diz ter recebido a segurança ou a certeza de que Deus “havia tirado os meus pecados, sim, os meus, e me salvara da lei do pecado e da morte”.
Ele tomava emprestada quase literalmente uma frase de Paulo aos Romanos, a qual mostra que Wesley, na sua própria experiência, havia ultrapassado a situação desesperadora de Paulo em Romanos capítulo sete “…o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” (7.18); “miserável homem que eu sou, quem me livrará do corpo desta morte?” (7.24). Ele citou apenas a última parte de 8.2, mas é quase certo que tinha em mente também 8.1: “Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus…”.
Como o Paulo de Romanos, capítulo 8, Wesley também se tornou vitorioso sobre o desespero de não poder praticar o bem e para ele não havia mais condenação (esta incapacidade é exatamente a situação do pecador que não pode fazer as escolhas que levam à salvação, como vimos nos estudos III e IV).
É inegável que a experiência de Wesley está na tradição de paulo em Romanos e de Martinho Lutero, mas Wesley não empregou o termo justificação e, sim, libertação. Provavelmente sua maneira mais típica de descrever a experiência (embora sem rejeitar o termo clássico “justificação”) é perdão. Para Wesley, o que realmente acontece é que Deus , qual o pai amoroso, perdoa e recebe de volta o filho, mesmo o filho pródigo, apaga as transgressões e estabelece um novo relacionamento baseado em amor. É assim que o próprio Jesus ilustra a transação. O Deus Jesus não é tipicamente, o juiz; Ele é pastor que busca até achar a ovelha que se perdeu,. A mulher que não descansa antes de receber a dracma perdida, o pai que anseia pela volta do filho e que faz banquete à sua volta.
Na mesma ocasião de Aldersgate, conforme seu diário, Wesley testemunha ter descoberto também critérios para testar a autenticidade da experiência, a saber, paz com Deus e vitória sobre o pecado. Estes critérios têm muito a ver com Romanos, capítulos sete e oito.
Romanos capítulo sete descreve a total incapacidade da pessoa sem Cristo para obedecer a Deus e agradá-lo. O resultado era, e tinha que ser, o desespero: “Miserável pessoa que sou…”. Mas para quem está em Cristo, perdoado dos seus pecados, nenhuma condenação há! O novo estado é o de paz com Deus. a antiga incapacidade de realizar a vontade de Deus, mesmo quando a gente o deseja ardentemente, é substituída pela vitória sobre o pecado. ETA segunda parte, claro critério da autenticidade da fé, se refere, na elaboração teológica de Wesley, ao Novo Nascimento, o assunto do nosso próximo estudo.
Para debater / Esclarecer / aprofundar / fazer
1. Com base neste estudo, formule em seu grupo a doutrina da justificação pela fé. Como ponto de partida, imagine que alguém lhe perguntou o que é essa doutrina. Formule uma resposta para essa pessoa.
2. Pesquise de novo o primeiro estudo que apontou diversas fontes do nosso conhecimento religioso (razão, experiência cristã, a Bíblia, a tradição da Igreja, e a criação ou natureza). Na formulação que seu grupo fez da doutrina da justificação pela fé, quais destas fontes foram utilizadas? O grupo utilizou outras fontes? Utilizou todas essas fontes? Uma ou outra ficou mais em destaque?
3. O que revela a doutrina da justificação pela fé sobre a natureza de Deus? Por exemplo, um deus que fosse exclusivamente um juiz austero que só quer punir o infrator daria espaço para uma doutrina como a da justificação pela fé?
4. Nossa compreensão da doutrina da justificação deve se limitar apenas ao perdão de Deus ou diz algo sobre a conduta social? Wesley e os primeiros metodistas tinham uma preocupação social ou apenas uma preocupação social ou apenas uma preocupação com a justificação individual?