Bases Bíblicas: Mateus 3.1; Marcos 1.15; Isaías 61.1-2; Lucas 4.18-19; João 1.14; I Coríntios 2.2; Gálatas 2.20; Romanos 5, 3.21-31.
Já chamamos a atenção para o fato de que os evangelistas Mateus e Marcos contam que Jesus iniciou sua missão com a austera mensagem de arrependimento. Assim como fora para João Batista o arrependimento um necessário preparo para a participação no Reino de Deus, cuja chegada ele anuncia (MT 3.1), também Jesus apregoava “arrependei-vos e crede no Evangelho” do Reino de Deus (Mc 1.15). A pregação de João Batista, como vimos no estudo anterior, foi uma pregação que exigia do ouvinte solidariedade com o oprimido, a renúncia do uso egoísta do poder e a prática da justiça, uma mensagem essencialmente profética. Lucas, que relata o anúncio do programa de Jesus na sinagoga de Nazaré onde ele leu Isaías 61.1-2, torna ainda mais explícita à natureza profética da obra que Jesus havia de realizar.
O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres, enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18-19).
No desenho do início do capítulo anterior, o arrependimento (autoconhecimento e “fruto”) é o alpendre; fé é a porta da casa que representa a vida cristã.
Martinho Lutero, na sua longa e dramática busca por um “Deus gracioso” descobriu na Bíblia a doutrina da justificação pela fé. A Epístola de Paulo aos Romanos, que mais claramente expõe tão preciosa doutrina, foi considerada por Lutero como o mais importante livro da Bíblia inteira. Neste momento não vamos discutir a justificação (efeito da fé); vamos, sim tentar nos restringir à natureza da fé em si.
Wesley aprendeu de Lutero (orientado, sem dúvida, por Pedro Boehler, missionário morávio) a natureza essencial da fé salvadora, a saber, a confiança em Cristo só para a salvação.
Fé salvadora não é idêntica à crença
Este fato é importante porque o vocábulo fé é frequentemente entendido em termos de aceitação intelectual de uma proposição ou definição doutrinária, isto é, o consentimento à verdade da proposição ou da doutrina. Clareza doutrinária é, obviamente, muito importante.
Irineu, na sua luta contra os gnósticos no final do 2º século, elaborou uma célebre Regra da Verdade, na qual ele argumentou que o verdadeiro ensino de Jesus havia sido transmitido através da tradição apostólica. Um importante elemento desta tradição era a afirmação de fé que conhecemos como o Credo Apostólico. Irineu denominou esse Credo a Fé dos Apóstolos. A venerável afirmação de fé contém um resumo de ensino essencial na época sobre Deus, Jesus Cristo, o espírito santo, a Igreja, a Vida Cristã e as Coisas Finais. Fé, então, como um credo, seria a aceitação de certas declarações como fatos, como verdades.
Sabemos ainda, pela Tradição apostólica de Hipólito que foi costume no 3º século perguntar ao batizado a respeito de sua crença ou aceitação das afirmações contidas no Credo. Para o conhecimento pleno do leitor, transcreve o trecho pertinente na íntegra.
“Assim que desce a água o que é batizado, diga-lhe o que batiza, impondo sobre ele a mão: Crês em Deus Pai todo Poderoso? E o que é batizado responda: Creio. Imediatamente, com a mão pousada sobre a sua cabeça, batize-o aquele uma vez. E diga, a seguir: Crês em Jesus Cristo, filho de Deus, que nasceu do Espírito santo e da Virgem Maria, e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e morreu (foi sepultado) e vivo ressurgiu dos mortos? Quando responder: Creio, será batizado pela segunda vez. E diga novamente: Crês no Espírito Santo, na santa Igreja ( e na ressurreição da carne?) Responda o que está sendo batizado: Creio. E seja batizado pela terceira vez” (Citado da tradição Apostólica da Hipólito de Roma, Vozes, 1971 pp 52-53).
É tentador continuar com essa linha de pensamento, mas para nosso propósito é mais importante perguntar: “Mas será que essa crença é idêntica à fé salvadora?”.
Fé como confiança
Martinho Lutero entendeu que a crença não é idêntica a Fé salvadora. João Wesley, na sua experiência na noite de 24 de maio de 1738, à Rua Aldersgate em Londres, realmente atravessou o alpendre e entrou pela porta da fé. É curioso que ele nem empregou a palavra “fé” para descrever sua experiência. Esse fato pode refletir a influência de Lutero, pois Wesley vinha estudando certos escritos de Lutero no período e, no momento da própria experiência, ele descreve no seu diário que “alguém lia no Prefácio de Lutero à Epístola aos romanos. Cerca de quinze para as nove, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração pela Fé em Cristo, eu senti que confiava em Cristo, tão somente pela minha salvação…”.
E mais que evidente que Wesley, como Lutero, traduzia a palavra fé pelo vocábulo “confiança”. (É significativo que pouco tempo depois dessa experiência, na mesma noite, João foi visitar seu irmão Carlos para contar-lhe da experiência. a primeira palavra que João proferiu foi: “Creio”!).
Não podemos, e nem devemos, eliminar todo o conteúdo intelectual da experiência da fé. Confiamos em Cristo – Cristo que é Deus encarnado (Jô 1.14), que morreu pelos nossos pecados (Paulo dizia aos coríntios que o conteúdo da sua pregação era Jesus cristo crucificado, 1 Co 2.2) e ressuscitou. A fé salvadora vai além de se crer na encarnação, na morte sacrificial de Jesus e na sua vitória sobre a morte.
Fé em Cristo é a entrega pessoal de nossa vida nas mãos de Cristo em confiança e obediência. É engajamento no seu projeto e na sua obra. É o estabelecimento de um relacionamento com Jesus tipo Eu-Tu, pelo qual não somos mais nós quem vivemos, mas Cristo que vive em nós (Gl 2.20). É através desta experiência, deste novo relacionamento, que passamos a ser uma nova criação.
Wesley iria escrever muito sobre a natureza e o conteúdo da fé mas ele nunca modificou sua posição básica que aprendeu através da experiência, a saber, que a fé é confiança em Cristo e só nele para a salvação!
Wesley cria que Deus oferecia o dom da fé a todos que, arrependidos, a buscassem. Não achava que era uma experiência rara e só para os especialmente favorecidos. Os irmãos Wesley haviam buscado a verdadeira fé em Cristo desde seu tempo de Oxford e durante sua missão em Geórgia, recebendo-a respectivamente no dia 21-05-1738 (Carlos) e 24-05-1738 (João). Eles logo descobriram que a experiência seguia se repetindo entre seus amigos e entre o povo em geral, depois de Jorge Whitefield começar a buscar os trabalhadores e os pobres no seu próprio ambiente, proclamando a mensagem de Deus ao ar livre. Os irmãos Wesley, não sem muito temor e tremor, logo seguiram seu exemplo, com resultados surpreendentes!
Como vimos, cada pessoa desperta pela pregação e que realmente se arrependia era arrolada como membro da sociedade e ainda de uma “classe” (grupo de 12 pessoas sob a direção de um guia ou líder) que, através do estudo da Bíblia, oração, disciplina e testemunho, não só visava à edificação religiosa e ética como também servia de grupo de apoio psicológico e material.
Como, vimos para se tornar metodista a primeira exigência era o arrependimento. Mas a própria estrutura do metodismo visava propiciar condições para que os arrependidos, já no alpendre, pudessem receber a fé viva em Cristo Jesus, a verdadeira porta da religião cristã.
Para aprofundar / Debater / trocar idéias / agir
1. Examinar em pequenos grupos os seguintes textos bíblicos que falam da fé. Focalizar o aspecto da fé que o texto apresenta. Ao repartir as diversas ênfases que os textos apresentam, o grupo certamente notará uma rica variedade. Essa variedade não significa que um texto contradiz o outro, mas demonstra que temos elementos diversificados para uma compreensão mais rica e mais profunda da fé. Observação: estes textos são mencionados para facilitar o trabalho. O grupo pode pesquisar outros textos que falam da fé, se desejar.
Hebreus 11, Tiago 2.14-26; João 20.24-29; Mateus 8.23-27, 9.1-8, 9.19-22, 17.14-21; Lucas 7.1-10; marcos 9.14-29; Romanos 4.1-25.
2. Verificar no estudo algumas práticas da fé dos metodistas no tempo de João Wesley. Quais elementos desta prática poderiam nos ajudar na busca da maturidade na fé?
3. Examinar a seguinte definição de fé: “A fé é aquela crença da mente e confiança no coração, pelas quais se aceita Cristo Jesus como salvador pessoal”. O grupo concorda? Acrescentaria algo? Tiraria algo?
4. Incentivar o grupo a tentar elaborar uma definição ou afirmação de fé para nossos dias. No momento de elaborar esta afirmação de fé procurem lembrar o “Equilíbrio Wesleyano” que oferece dicas. Por exemplo, para elaborar uma afirmação de fé a nossa razão pode ficar fora? É preciso considerar a experiência cristã e a experiência pessoal com Deus? Os documentos da fé e as tradições da Igreja devem ser levados em conta? A Bíblia tem algo a contribuir? Se observarmos com atenção a natureza e este mundo que Deus criou receberemos inspirações e mensagens de fé?
5. Pesquisar no estudo o que foi feito com as pessoas despertadas pela pregação de Wesley e pelos contatos com o movimento metodista. Comparar isto com aquilo que está sendo feito na sua Igreja local em torno da recepção de novos membros. Qual procedimento é melhor? Como podemos aprender hoje das práticas do Metodismo nos tempos antigos?