Bases Bíblicas: Hebreus 12.14; Mateus 5.8; II Coríntios 1.2; João 1; I João3.11-24; I Tessalonicenses 5.16-18; João 14.2.
João Wesley primeiro publicou seus sermões doutrinários em 1747. Em 1755 sua Notas Explicativas sobre o Novo Testamento saíram do prelo. Bem mais tarde, em preparação para a constituição da Igreja Metodista Episcopal, nos Estados Unidos (1784), ele adaptou os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, assim fornecendo um outro elemento doutrinário muito significativo. Este resumo são os Vinte e Cinco Artigos de Religião aceitos pela Igreja Metodista. Mas, embora considerados uma fonte oficial da doutrina metodista, os hinos de João e Carlos Wesley serviram como um extraordinário veículo para o ensino e a divulgação do pensamento do movimento.
Os primeiros hinos foram escritos por João, sendo traduções livres do alemão; porém, Carlos passou a ser o principal escritor de hinos metodistas. Ao todo ele escreveu a letra (não música) de mais 6.500 hinos! Entre os poucos desta vasta coleção que constam dos hinários brasileiros é o hino nº 293 do Hinário Evangélico, “Grande Amor”. Em inglês, o hino é intitulado Love Divine, All Loves Excelling, e é uma linda exposição poética da doutrina da Perfeição Cristã.
Exposição, estrofe, do texto do hino “Love Divine”
Primeira estrofe: enaltece o divino amor que excede todo amor humano e que é fundamento da nossa salvação. As seguintes linhas tratam do tema da Perfeição:
- “Fixe em nós tua habitação” fala da habitação permanente, constante, da presença e do poder transformador de Deus.
- “Coroa as tuas misericórdias”. A misericórdia (graça) de Deus está presente em todo cristão ou cristã, pois a justificação (perdão) deriva da livre graça de Deus. Coroar essa misericórdia seria o ato de levar a nossa salvação a um grau mais elevado, ou seja, a concessão da Perfeição.
Segunda estrofe: enfatiza a presença e a ação do Espírito Santificador. A versão brasileira, “Vem remove o mau (não o “meu”desejo) traduz bem o inglês, falando do coração do qual Deus remove não só o pecado como erradica a sua raiz”.
Terceira estrofe: da 3ª estrofe em inglês nada aparece na versão em português. Mas na versão original, cada linha fala da perfeição.
- “Deixa-nos receber a Tua vida”;
- “Nunca mais abandone o Teu templo”, a saber, o coração humano; fala da presença permanente e constante de Deus;
- “Queremos sempre Te louvar e Te servir”, constante e perfeitamente como fazem os anjos;
- “Orar e louvar-Te sem cessar”;
- “Gloriar-nos em teu amor perfeito”.
Estas três últimas frases nos lembram 1 Ts 5.16-18, trecho chave para entender o pensamento wesleyano sobre a perfeição. Visto num sentido global, o trecho se refere a um estado de comunhão ininterrupta com Deus e uma submissão alegre e integral à Sua vontade, característica importante da perfeição cristã.
Quarta estrofe: a última estrofe também se relaciona integralmente à perfeição cristã.
- “Completa, então a tua nova criação; tornar-nos puros e imaculados”. A “nova criação” resulta da fé em Cristo, o perdão e a regeneração. A petição é que esta nova criação seja aperfeiçoada através de uma santificação (purificação) total. Para afirmar este ponto, veja de novo o comentário no estudo anterior, especialmente sobre hebreus 12.14 e Mateus 5.8.
- “Deixa-nos ver tua grande salvação, perfeitamente restaurados em Ti”. É a grande salvação, não a simples, ou seja, não apenas justificação, mas perfeição; não mera restauração perfeita, até da imagem de Deus tão danificada pela queda.
A conclusão inevitável é que Carlos Wesley ensinava o povo metodista através dos seus hinos, as principais ênfases doutrinárias do movimento. Não só ensinava a doutrina aos metodistas, mas garantia sua divulgação por toda a parte onde metodistas atuavam e atuariam.
Pontos em comum entre a Santificação e a Perfeição Cristã
1. A fundamentação bíblica e patrística é virtualmente a mesma para as duas doutrinas. Portanto, as referências bíblicas do estudo anterior servem para este.
2. As características das duas são também muito semelhantes. Ambas são pautadas pelo amor para com deus e para com o próximo, a pureza absoluta de caráter e uma plena imitação de Cristo em atos, atitudes e postura mental.
3. Em Ambos os casos, o resultado é uma espiritualidade engajada.
4. Tanto a santificação como a perfeição são ideais para todos/todas que crêem em Cristo Jesus. No estudo anterior notamos a importância de Hebreus 12.14 para Wesley. Ele concluiu que a santificação, no sentido de pureza de coração, era essencial à salvação final. A perfeição cristã, a qual deveria ser o alvo e a motivação de todo(a) metodista e que poderia ser atingida a qualquer estágio na peregrinação que é a santificação, tinha que ocorrer pelo menos na hora da morte, como necessária preparação para a eterna vivência com deus além da morte.
Quais as diferenças?
1. A santificação, que é um processo, geralmente longo, de crescimento e de luta em direção à maturidade. Mas, a santificação é um processo, a perfeição pode ser considerada como um ponto, um momento, uma experiência em alguma altura da caminhada, entre o momento da dádiva da fé e o momento da morte física. Isso significa a possibilidade de crescimento na graça mesmo após recebermos o dom da Perfeição Cristã. Isto é, no entender de Wesley, a Perfeição Cristã é um “ponto”, mas não é o ponto final.
2. A perfeição é sempre precedida por uma nova experiência de arrependimento. Trata-se de algo diferente daquilo que já foi considerado no capítulo V, representado no desenho da casa como o alpendre. Pois é o arrependimento de uma pessoa que confia em Cristo para a salvação, que vive da graça de Deus. Mas, no processo de crescimento na graça, que é a essência da santificação, a gente descobre em si algum vestígio do pecado, o que pode ser denominado de “raiz” que ficou depois da “árvore” do pecado ser cortada.
Quando isso acontece – quando passa a haver uma consciência nítida de que ainda existe em nós certo vestígio de pecado em qualquer forma – ou seja, quando percebemos quem somos, deus nos torna aptos para a experiência da perfeição. Esta espécie de arrependimento não nos mostra como pessoas em Cristo e sem salvação; mostra-nos, sim, como pessoas imperfeitas, com falhas que Cristo pode corrigir.
Uma vez que o ponto crítico é perfeição em amor, nos ajuda muito a compreender a questão e analisar os defeitos mais comuns quanto ao amor. Alguns deles são: amor que se limita apenas a pequenos círculos restritos (quanto à raça, nação, classe social etc…); preconceitos: amor misturado com o egoísmo; amor sem correspondente, ação e muitos outros…
Ao arrependimento do tipo mencionado logo acima é necessário que se acrescente a fé. Mas qual é a natureza da fé que gera a perfeição? A terceira estrofe de “Grande amor” em inglês expressa muito bem o sentido dessa espécie de fé. E fé em Cristo, naturalmente, mas é a fé em que Cristo tem tanto o poder quanto o querer de completar em nós sua nova criação, deixando-nos totalmente puros e livres de toda mácula pecaminosa.
3. Cada crente em Cristo tem, alguns mais, outros menos, a santificação. Paulo tinha razão quando endereçava suas epístolas geralmente “aos santos” de determinado lugar – ou, em II Coríntios 1.2, “aos Santificados em Cristo Jesus, chamados santos”. Mas o mesmo não se dá com respeito à perfeição cristã.
Um exemplo importante é o próprio João Wesley. Curiosamente, Wesley exortava a todos(as) os(as) metodistas a prosseguirem para a perfeição e também ele se alegrava sempre que tinha conhecimento de alguém que alcançava a graça da perfeição. Ele não aceitava, no entanto, a simples declaração como sendo o fato. Como veremos logo abaixo, ele procurava testar autenticidade da experiência. Mas, no caso dele mesmo, ele nunca declarou publicamente ter recebido a graça da perfeição.
Testes da Perfeição Cristã
Como seria possível saber se alguém realmente foi agraciado(a) com a perfeição cristã? Como avaliar autenticidade da experiência?
Os elementos de comprovante são semelhantes ao caso do Testemunho do espírito. Aqui o testemunho da comunidade da fé é muito importante. Wesley considerava a primeira epístola de João um dos melhores comentários sobre a perfeição cristã; o seu conteúdo, portanto, tem um versículo de I João 5.20: Se alguém disse: “amo a Deus”, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a deus a quem não vê.
- Mas o amor que se dá aos outros, como Cristo deu sua vida por nós (3.16).
- É amor que vai além da palavra e da intenção (3,18), se expressa na solidariedade e no compartilhar com o necessitado (3.17).
- A consciência de quem assim procede não o acusa; pelo contrário, ele tem “confiança diante de Deus (3.21), pois tem a convicção de estar cumprindo o mandamento de Deus ( “amemos-nos uns aos outros” – 3.23).
O próprio Wesley aplicava certos “testes” a pessoas que professavam ter recebido a graça da perfeição. O cerne dessa testagem se baseava em 1 Ts 5.16-18. Assim Wesley, a fim de verificar a autenticidade da experiência, perguntava à pessoa se regozijava sempre, mesmo em face de desastres, contratempos, perda de entes queridos; se orava sem cessar, mantendo uma comunhão ininterrupta com Deus, até o ponto de sonhar sonhos puros. (Se o subconsciente for purificado por obra do Espírito Santo, os sonhos devem também ser puros). Wesley perguntava se a pessoa dava graças por tudo e para tudo. Em outras palavras, Wesley procurava descobrir se a pessoa tinha a convicção de uma comunhão perfeita com Deus e uma alegre submissão à sua vontade sempre.
Restam duas observações. Primeiro, era o número de pessoas que professavam e davam evidencia de terem recebido o dom da perfeição que Wesley escolhia os membros das “Sociedade Seleta”, um pequeno grupo de conselheiros e de apoio.
A segunda observação que Wesley admitia o crescimento em graça mesmo após ter a experiência da perfeição. Isto era principalmente pelo fato de que a perfeição não isentava pessoas de erros ou equívocos ou ainda da tentação. Ele a via em termos de amor para com Deus e com o Próximo. A perfeição significava um coração pleno de amor; mas o próprio exercício do amor poderia aumentar a capacidade de amar mais e mais. Ademais, ele admitia que João 14.2 pudesse ser traduzido. “Na casa do meu pai há muitos estágios”, no sentido de um processo de crescimento possível na vivência da perfeita comunhão com o Pai além da morte.
Para refletir / fazer / agir / meditar
1. Com base nos subsídios do estudo, incentivar o grupo a fazer uma lista dos componentes de um amor imperfeito / parcial e um amor perfeito / total.
2. O estudo afirma que a Perfeição Cristã leva, necessariamente, a atos de misericórdia, de serviço e de solidariedade. O grupo concorda? Por que?
3. O grupo vê algumas vantagens em divulgar e enfocar a doutrina da Perfeição Cristã? Existem também perigos? Quais?
4. Para completar individualmente: Eu entendo que a doutrina da Perfeição Cristã significa ______________________________________________________________
Ainda eu levanto esta questão (dúvida) ou reserva sobre a doutrina da Perfeição Cristã: _______________________________________________________________
O estudo sobre a Perfeição Cristã ajudará da seguinte maneira em minha vivência cristã: _______________________________________________________________________
5. Para o grupo completar em comum acordo: Sugerimos os seguintes testes para demonstrar a validade da experiência da Perfeição.
a) Dizem por aí que os metodistas de hoje soam descaracterizados e que não tem doutrina. Que diz o grupo sobre isso após estes estudos doutrinários?
b) Como o grupo avalia a experiência de ter feito esta série de estudos? O que foi de mais valor na vivência da fé? Que diferença estes estudos farão na prática de fé? Ficou alguma dúvida ou dificuldade quanto aos pontos levantados nos estudos?
c) Que pensou o grupo sobre as bases bíblicas apresentadas? Fundamentaram bem os estudos? O material bíblico foi bem trabalhado nos estudos pelo grupo? O grupo foi incentivado a prosseguir mais nos estudos bíblicos e em suas leituras individuais da Bíblia?
d) O grupo tomou conhecimento sinais de crescimento na fé? Os estudos ajudaram o grupo na sua caminhada de fé “a caminhada da maturidade”?
e) O grupo tomou conhecimento das sugestões do autor no pequeno resumo dos pontos principais desta série de estudos? Prestou bem atenção aos desenhos ilustrativos dando uma idéia gráfica do sentido das doutrinas?
f) O grupo é incentivado a guardar este livrinho na sua biblioteca particular para consultas futuras, recordações e aprofundamento nos estudos?
g) Os membros do grupo estão mais dispostos a repartir a sua fé com os demais com base nestes pontos doutrinários?
Resumo
1. Sugerimos que ninguém comece com a leitura das páginas que se seguem. A intenção do autor é que, após uma leitura cuidadosa de toda a série, a fim de rever rapidamente o conteúdo e gravá-lo melhor e, mais ainda, para ter uma visão panorâmica de toda a doutrina da Redenção e a correlação dela com a estrutura e a espiritualidade do metodismo antigo, se faça uso das poucas páginas seguintes.
2. Não tentamos reproduzir tudo o que se encontra nos textos dos estudos. Nem tentamos dar um catálogo das pertinentes passagens bíblicas. Há também alguns espaços em branco. O(a) leitor(a) é encorajado(a) a usar o espaço para acrescentar outras referências bíblicas, observações pessoais e material complementar.
3. A intenção do autor é oferecer uma humilde ferramenta ao (à) leitor(a) para uma melhor utilização do pequeno opúsculo aqui representado. Se você descobrir que, no seu caso, não ajuda, então não se considere obrigado(a) a usá-lo. Se porém, lhe ajudar de qualquer forma, eu me sentirei recompensado pelo esforço despendido na sua preparação.
Bibliografia:
Reily, Alexander Duncan. Ênfases Metodistas – A Redenção. CEMETRE / Maio 2009 – Curitiba – PR