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Perfeição Cristã – Estudos Bíblicos

Bases Bíblicas: Hebreus 12.14; Mateus 5.8; II Coríntios 1.2; João 1; I João3.11-24; I Tessalonicenses 5.16-18; João 14.2.

João Wesley primeiro publicou seus sermões doutrinários em 1747. Em 1755 sua Notas Explicativas sobre o Novo Testamento saíram do prelo. Bem mais tarde, em preparação para a constituição da Igreja Metodista Episcopal, nos Estados Unidos (1784), ele adaptou os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, assim fornecendo um outro elemento doutrinário muito significativo. Este resumo são os Vinte e Cinco Artigos de Religião aceitos pela Igreja Metodista. Mas, embora considerados uma fonte oficial da doutrina metodista, os hinos de João e Carlos Wesley serviram como um extraordinário veículo para o ensino e a divulgação do pensamento do movimento.

Os primeiros hinos foram escritos por João, sendo traduções livres do alemão; porém, Carlos passou a ser o principal escritor de hinos metodistas. Ao todo ele escreveu a letra (não música) de mais 6.500 hinos! Entre os poucos desta vasta coleção que constam dos hinários brasileiros é o hino nº 293 do Hinário Evangélico, “Grande Amor”. Em inglês, o hino é intitulado Love Divine, All Loves Excelling, e é uma linda exposição poética da doutrina da Perfeição Cristã.  

Exposição, estrofe, do texto do hino “Love Divine”  

Primeira estrofe: enaltece o divino amor que excede todo amor humano e que é fundamento da nossa salvação. As seguintes linhas tratam do tema da Perfeição:

  • “Fixe em nós tua habitação” fala da habitação permanente, constante, da presença e do poder transformador de Deus.
  • “Coroa as tuas misericórdias”. A misericórdia (graça) de Deus está presente em todo cristão ou cristã, pois a justificação (perdão) deriva da livre graça de Deus. Coroar essa misericórdia seria o ato de levar a nossa salvação a um grau mais elevado, ou seja, a concessão da Perfeição. 

Segunda estrofe: enfatiza a presença e a ação do Espírito Santificador. A versão brasileira, “Vem remove o mau (não o “meu”desejo) traduz bem o inglês, falando do coração do qual Deus remove não só o pecado como erradica a sua raiz”. 

Terceira estrofe: da 3ª estrofe em inglês nada aparece na versão em português. Mas na versão original, cada linha fala da perfeição.

  • “Deixa-nos receber a Tua vida”;
  • “Nunca mais abandone o Teu templo”, a saber, o coração humano; fala da            presença permanente e constante de Deus;
  • “Queremos sempre Te louvar e Te servir”, constante e perfeitamente como fazem os anjos;
  • “Orar e louvar-Te sem cessar”;
  • “Gloriar-nos em teu amor perfeito”.

Estas três últimas frases nos lembram 1 Ts 5.16-18, trecho chave para entender o pensamento wesleyano sobre a perfeição. Visto num sentido global, o trecho se refere a um estado de comunhão ininterrupta com Deus e uma submissão alegre e integral à Sua vontade, característica importante da perfeição cristã.

Quarta estrofe: a última estrofe também se relaciona integralmente à perfeição cristã.

  • “Completa, então a tua nova criação; tornar-nos puros e imaculados”. A “nova criação” resulta da fé em Cristo, o perdão e a regeneração. A petição é que esta nova criação seja aperfeiçoada através de uma santificação (purificação) total. Para afirmar este ponto, veja de novo o comentário no estudo anterior, especialmente sobre hebreus 12.14 e Mateus 5.8.
  • “Deixa-nos ver tua grande salvação, perfeitamente restaurados em Ti”. É a grande salvação, não a simples, ou seja, não apenas justificação, mas perfeição; não mera restauração perfeita, até da imagem de Deus tão danificada pela queda.

A conclusão inevitável é que Carlos Wesley ensinava o povo metodista através dos seus hinos, as principais ênfases doutrinárias do movimento. Não só ensinava a doutrina aos metodistas, mas garantia sua divulgação por toda a parte onde metodistas atuavam e atuariam.

Pontos em comum entre a Santificação e a Perfeição Cristã

1. A fundamentação bíblica e patrística é virtualmente a mesma para as duas doutrinas. Portanto, as referências bíblicas do estudo anterior servem para este.

2. As características das duas são também muito semelhantes. Ambas são pautadas pelo amor para com deus e para com o próximo, a pureza absoluta de caráter e uma plena imitação de Cristo em atos, atitudes e postura mental.

3. Em Ambos os casos, o resultado é uma espiritualidade engajada.

4. Tanto a santificação como a perfeição são ideais para todos/todas que crêem em Cristo Jesus. No estudo anterior notamos a importância de Hebreus 12.14 para Wesley. Ele concluiu que a santificação, no sentido de pureza de coração, era essencial à salvação final. A perfeição cristã, a qual deveria ser o alvo e a motivação de todo(a) metodista e que poderia ser atingida a qualquer estágio na peregrinação que é a santificação, tinha que ocorrer pelo menos na hora da morte, como necessária preparação  para a eterna vivência com deus além da morte.

Quais as diferenças?

 1. A santificação, que é um processo, geralmente longo, de crescimento e de luta em direção à maturidade. Mas, a santificação é um processo, a perfeição pode ser considerada como um ponto, um momento, uma experiência em alguma altura da caminhada, entre o momento da dádiva da fé e o momento da morte física. Isso significa a possibilidade de crescimento na graça mesmo após recebermos o dom da Perfeição Cristã. Isto é, no entender de Wesley, a Perfeição Cristã é um “ponto”, mas não é o ponto final. 

2. A perfeição é sempre precedida por uma nova experiência de arrependimento. Trata-se de algo diferente daquilo que já foi considerado no capítulo V, representado no desenho da casa como o alpendre. Pois é o arrependimento de uma pessoa que confia em Cristo para a salvação, que vive da graça de Deus. Mas, no processo de crescimento na graça, que é a essência da santificação, a gente descobre em si algum vestígio do pecado, o que pode ser denominado de “raiz” que ficou depois da “árvore” do pecado ser cortada.

Quando isso acontece – quando passa a haver uma consciência nítida de que ainda existe em nós certo vestígio de pecado em qualquer forma – ou seja, quando percebemos quem somos, deus nos torna aptos para a experiência da perfeição. Esta espécie de arrependimento não nos mostra como pessoas em Cristo e sem salvação; mostra-nos, sim, como pessoas imperfeitas, com falhas que Cristo pode corrigir.

Uma vez que o ponto crítico é perfeição em amor, nos ajuda muito a compreender a questão e analisar os defeitos mais comuns quanto ao amor. Alguns deles são: amor que se limita apenas a pequenos círculos restritos (quanto à raça, nação, classe social etc…); preconceitos: amor misturado com o egoísmo; amor sem correspondente, ação e muitos outros…

Ao arrependimento do tipo mencionado logo acima é necessário que se acrescente a fé. Mas qual é a natureza da fé que gera a perfeição? A terceira estrofe de “Grande amor” em inglês expressa muito bem o sentido dessa espécie de fé. E fé em Cristo, naturalmente, mas é a fé em que Cristo tem tanto o poder quanto o querer de completar em nós sua nova criação, deixando-nos totalmente puros e livres de toda mácula pecaminosa.  

3. Cada crente em Cristo tem, alguns mais, outros menos, a santificação. Paulo tinha razão quando endereçava suas epístolas geralmente “aos santos” de determinado lugar – ou, em II Coríntios 1.2, “aos Santificados em Cristo Jesus, chamados santos”. Mas o mesmo não se dá com respeito à perfeição cristã.

Um exemplo importante é o próprio João Wesley. Curiosamente, Wesley exortava a todos(as) os(as) metodistas a prosseguirem para a perfeição e também ele se alegrava sempre que tinha conhecimento de alguém que alcançava a graça da perfeição. Ele não aceitava, no entanto, a simples declaração como sendo o fato. Como veremos logo abaixo, ele procurava testar autenticidade da experiência. Mas, no caso dele mesmo, ele nunca declarou publicamente ter recebido a graça da perfeição.

Testes da Perfeição Cristã

 Como seria possível saber se alguém realmente foi agraciado(a) com a perfeição cristã? Como avaliar autenticidade da experiência?

Os elementos de comprovante são semelhantes ao caso do Testemunho do espírito. Aqui o testemunho da comunidade da fé é muito importante. Wesley considerava  a primeira epístola de João um dos melhores comentários sobre a perfeição cristã; o seu conteúdo, portanto, tem um versículo de I João 5.20: Se alguém disse: “amo a Deus”, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a deus a quem não vê. 

  • Mas o amor que se dá aos outros, como Cristo deu sua vida por nós (3.16).
  • É amor que vai além da palavra e da intenção (3,18), se expressa na solidariedade e no compartilhar com o necessitado (3.17).
  • A consciência de quem assim procede não o acusa; pelo contrário, ele tem “confiança diante de Deus (3.21), pois tem a convicção de estar cumprindo o mandamento de Deus ( “amemos-nos uns aos outros” – 3.23).

O próprio Wesley aplicava certos “testes” a pessoas que professavam ter recebido a graça da perfeição. O cerne dessa testagem se baseava em 1 Ts 5.16-18. Assim Wesley, a fim de verificar a autenticidade da experiência, perguntava à pessoa se regozijava sempre, mesmo em face de desastres, contratempos, perda de entes queridos; se orava sem cessar, mantendo uma comunhão ininterrupta com Deus, até o ponto de sonhar sonhos puros. (Se o subconsciente for purificado por obra do Espírito Santo, os sonhos devem também ser puros). Wesley perguntava se a pessoa dava graças por tudo e para tudo. Em outras palavras, Wesley procurava descobrir se a pessoa tinha a convicção de uma comunhão perfeita com Deus e uma alegre submissão à sua vontade sempre.

Restam duas observações. Primeiro, era o número de pessoas que professavam e davam evidencia de terem recebido o dom da perfeição que Wesley escolhia os membros das “Sociedade Seleta”, um pequeno grupo de conselheiros e de apoio.

A segunda observação que Wesley admitia o crescimento em graça mesmo após ter a experiência da perfeição. Isto era principalmente pelo fato de que a perfeição não isentava pessoas de erros ou equívocos ou ainda da tentação. Ele a via em termos de amor para com Deus e com o Próximo. A perfeição significava um coração pleno de amor; mas o próprio exercício do amor poderia aumentar a capacidade de amar mais e mais. Ademais, ele admitia que João 14.2 pudesse ser traduzido. “Na casa do meu pai há muitos estágios”, no sentido de um processo de crescimento possível na vivência da perfeita comunhão com o Pai além da morte.

Para refletir / fazer / agir / meditar

 1. Com base nos subsídios do estudo, incentivar o grupo a fazer uma lista dos componentes de um amor imperfeito / parcial e um amor perfeito / total.  

2. O estudo afirma que a Perfeição Cristã leva, necessariamente, a atos de misericórdia, de serviço e de solidariedade. O grupo concorda? Por que? 

3. O grupo vê algumas vantagens em divulgar e enfocar a doutrina da Perfeição Cristã? Existem também perigos? Quais?  

4. Para completar individualmente: Eu entendo que a doutrina da Perfeição Cristã significa ______________________________________________________________

 Ainda eu levanto esta questão (dúvida) ou reserva sobre a doutrina da Perfeição Cristã:  _______________________________________________________________

O estudo sobre a Perfeição Cristã ajudará da seguinte maneira em minha vivência cristã: _______________________________________________________________________

5. Para o grupo completar em comum acordo: Sugerimos os seguintes testes para demonstrar a validade da experiência da Perfeição. 

a) Dizem por aí que os metodistas de hoje soam descaracterizados  e que não tem doutrina. Que diz o grupo sobre isso após estes estudos doutrinários? 

b) Como o grupo avalia a experiência de ter feito esta série de estudos? O que foi de mais valor na vivência da fé? Que diferença estes estudos farão na prática de fé? Ficou alguma dúvida ou dificuldade quanto aos pontos levantados nos estudos?  

c) Que pensou o grupo sobre as bases bíblicas apresentadas? Fundamentaram bem os estudos? O material bíblico foi bem trabalhado nos estudos pelo grupo? O grupo foi incentivado a prosseguir mais nos estudos bíblicos e em suas leituras individuais da Bíblia? 

d) O grupo tomou conhecimento sinais de crescimento na fé? Os estudos ajudaram o grupo na sua caminhada de fé “a caminhada da maturidade”?  

e) O grupo tomou conhecimento das sugestões do autor no pequeno resumo dos pontos principais desta série de estudos? Prestou bem atenção aos desenhos ilustrativos dando uma idéia gráfica do sentido das doutrinas? 

f) O grupo é incentivado a guardar este livrinho na sua biblioteca particular para consultas futuras, recordações e aprofundamento nos estudos?

 g) Os membros do grupo estão mais dispostos a repartir a sua fé com os demais com base nestes pontos doutrinários?

 Resumo    

1. Sugerimos que ninguém comece com a leitura das páginas que se seguem. A intenção do autor é que, após uma leitura cuidadosa de toda a série, a fim de rever rapidamente o conteúdo e gravá-lo melhor e, mais ainda, para ter uma visão panorâmica de toda a doutrina da Redenção e a correlação dela com a estrutura e a espiritualidade do metodismo antigo, se faça uso das poucas páginas seguintes.  

2. Não tentamos reproduzir tudo o que se encontra nos textos dos estudos. Nem tentamos dar um catálogo das pertinentes passagens bíblicas. Há também alguns espaços em branco. O(a) leitor(a) é encorajado(a) a usar o espaço para acrescentar outras referências bíblicas, observações pessoais e material complementar.  

3. A intenção do autor é oferecer uma humilde ferramenta ao (à) leitor(a) para uma melhor utilização do pequeno opúsculo aqui representado. Se você descobrir que, no seu caso, não ajuda, então não se considere obrigado(a) a usá-lo. Se porém, lhe ajudar de qualquer forma, eu me sentirei recompensado pelo esforço despendido na sua preparação.  

Bibliografia: 

Reily, Alexander Duncan. Ênfases Metodistas – A Redenção. CEMETRE / Maio 2009 – Curitiba – PR

A Santificação – Estudo Bíblico

O conceito metodista e wesleyano de santidade muito pouco tem a ver com a vida monástica a que tantos daqueles(as) apelidados santos(as) estão ou foram vinculados. Ilustremos o conceito por William Wilberforce , líder do parlamento inglês na luta anti-escravagista. Depois de uma marcante experiência religiosa, Wilberforce decidiu abandonar a política para poder cultivar a vida “espiritual”. João Wesley, inconformado com a decisão do parlamentar, o persuadiu a expressar a sua fé não na fuga da vida política e da luta humanitária, mas exatamente através de uma luta sem tréguas contra o mal da escravidão. Na última carta que Wesley escreveu, apenas uma semana antes da sua morte, ele instou-o: “Prossiga, no nome e na força do poder de Deus, até que mesmo a escravidão norte-americana (a mais vil que vira o sol) desapareça perante ele”.

A santificação, então, embora exija as tradicionais disciplinas da vida religiosa- oração, meditação, estudo bíblico, plena participação na comunidade da fé e na sua vida cúltica- não afasta o cristão e a cristã do povo, suas lutas e seu sofrimento. Pelo contrário, conduz à identificação, à solidariedade e ao engajamento. A mesma carta que citamos acima expressa bem essa vinculação do religioso / espiritual ao engajamento / ação. Citamos um pouco mais do seu conteúdo:

A não ser que Deus o tenha levantado para isso mesmo, a eliminação da escravidão, você será destruído pela oposição de homens e demônios. Mas se Deus for com você, quem será contra você? Estarão todos eles juntos mais poderosos do que Deus? Ó, não se canse de fazer o bem! Prossiga, no nome e na força de Deus…(a carta datada de 24/02/1791, na sua íntegra, se encontra em Letters of the Rev. John Wesley, A. M., Vol VIII, p.265). Que dizer, então, do sentido da santificação no pensamento de Wesley?

1. Em primeiro lugar, não uma doutrina peculiar a Wesley e aos metodistas, muito embora lhes seja característica. Isto é, não é uma doutrina arcana, esotérica, escondida nas entrelinhas de um ou dois versículos bíblicos ou ainda divertimento intelectual de um teólogo esquecido de outrora. Muito pelo contrário, é um conceito muito trabalhado na bíblia, quer no Antigo, quer no Novo Testamento e tema muito encontrado nos escritos dos antigos pais da Igreja. Aliás, Wesley costumava dizer que os metodistas não introduziram novidade alguma, e sim cultivaram as doutrinas consideradas, desde os primórdios, essenciais.

Por isso a fundamentação bíblica, tanto da santificação quanto da perfeição cristã, doutrina muito ligada àquela, se encontra um tanto espalhada pela bíblia. Entre as passagens mais citadas a propósito são as seguintes, as quais devem ser lidas agora com todo cuidado. Apenas por economia de espaço não as transcrevemos na íntegra.

Mateus 5.43-48 (Lv 11.44-45). Na passagem de Mateus 5.43-38 o aspecto da perfeição mais destacado é a perfeição em amor.

Filipenses 2.5-11 – “ter a mente de Cristo”, a mente de abnegação, de esvaziamento de si, tudo para beneficio de outrem.

Efésios 5.11 – andar uniformemente como Cristo andou ou, numa expressão mui conhecida, a imitação de Cristo. Convém notar aqui que um dos livros favoritos de Wesley é um que ele próprio publicou várias vezes foi Kempis, a Imitação de Cristo ou, como Wesley preferia chamá-lo, o Padrão Cristão.

Hebreus 12.10 e 14 (em conjunto com MT 5.8). Wesley se convenceu que a santificação, incluindo a pureza de coração, era essencial à salvação final 9º breve comentário dos trechos é apenas sugestivo de um debate que poderia ser muito mais aprofundado).

2. A santificação é obra do Espírito Santo

Mas, para Wesley, o Espírito Santo atua em todos os aspectos do processo de redenção humana. Basta agora apenas ressaltar os mais importantes momentos dessa atuação. O desenvolvimento prático da sua doutrina mostra que a crença de Wesley na Santíssima Trindade ia além da mera aceitação formal de que na “Divindade, há três pessoas da mesma substância, poder e eternidade…” (Artigo de Religião nº 1).

A consciência da nossa natureza pecaminosa (autoconhecimento) é, em grande parte, obra do Espírito Santo( Jo 16.8-9). É do Espírito Santo que testemunha como o nosso espírito que somos filhos e filhas de Deus (Rm 8.16). E, andando não segundo a carne, mas segundo o espírito habitando em nós, processa-se em nós a santificação (veja aqui Rm 8.1-17; I co 6.19).

3. A santificação era considerada por Wesley como o processo de aperfeiçoamento da vida cristã em todos os aspectos ou, em outras palavras, o crescimento em graça. O modelo humano para o processo de santificação é Jesus, o qual, por sua vez, foi a mais perfeita revelação de Deus. Portanto, Wesley enfatiza muito a aquisição da mente de Cristo (Fp 2.5-11) e o andar uniformemente como Cristo andou (Ef 5.1-2; At 10.38).  Ainda mais insistente Wesley falava da santificação (e de perfeição cristã) em termos de amor. Jesus, o Filho unigênito de Deus, veio revelar o pai (Jo  1.18). Revelou-O como Deus de amor através do seu próprio ato de amor mais dramático (Jo 15.15), e deixou como mandamento a ordem inequívoca: “Que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei” Jo 15.12 (todo trecho Jo 25.9-17; 10.11; Mt 20.28). O processo leva à pureza de coração, sem igual ninguém verá a Deus (Hb 12.14; MT 5.8). 

4. A santificação implica, necessariamente, em obras. No tempo de Martinho Lutero, o cristão ou cristã procurava comprar sua salvação pelas obras meritórias, tornando vã a graça de Deus. Para combater essa tendência tão generalizada, Lutero desprezava expressões práticas da fé, na forma de preocupações com os necessitados e justiça aos oprimidos. Mas sua ênfase tão forte no lado da graça, na prática causou o lado das boas obras em favor dos pobres e marginalizados a ser negligenciado. Isto é claro, por exemplo, em algumas famosas Noventa e Cinco Teses de 31-10-1517, tais como (43): “Deve ensinar-se aos cristãos que dar aos pobres é melhor que comprar perdões. (44) Por causa das obras do amor, o amor é aumentado e o homem progride no bem; enquanto que pelos perdões não há progresso da bondade, mas simplesmente liberdade  de penas”. (Citado de H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo, ASTE, p 235).

Cremos que no Metodismo há um saudável equilíbrio entre fé e obras (estas como fruto da fé e não o preço da salvação), justificação (princípio protestante) e santificação (princípio católico). Já mencionamos que existem teólogos metodistas que vêem a justificação pela fé como a doutrina central e básica de Wesley. Outros, como Sangester, vêem a perfeição cristã como aquele centro ao redor do qual tudo mais gira. Pessoalmente, eu creio que a grande paixão doutrinária era a Redenção, processo no qual os pólos justificação pela e santificação / perfeição estão em constante tensão dinâmica.

 5. A santificação, que é um processo, prepara o caminho para a perfeição cristã, o que ocorre num instante. O grande ponto de convergência entre a santificação e a perfeição é o AMOR. As diferenças principais devem ser examinadas, mas reservaremos isso para o próximo e último estado desta série. 

Para meditar /  aprofundar /  trocar idéias /  fazer

 1. Verificar bem o conteúdo deste estudo sobre a santificação anotando sua natureza e suas conseqüências. À luz deste estudo, trocar idéias no grupo:

- Como este estudo pode ajudar os metodistas a caminho da maturidade?  

2. Formular com o grupo uma definição da santificação que seja uma expressão adequada daquilo que vocês pensam sobre o assunto. 

3. Para completar (individualmente): – Ao tomar conhecimento deste estudo de que Wesley pensava que cada cristão e cada cristã é chamado para uma vida de santificação, eu…

- No metodismo, os dois pólos justificação pela fé e santificação estão em constante tensão dinâmica. Em nossa igreja local este equilíbrio está funcionando nos diversos ministérios?

 4. Para o grupo completar finalmente: – Para nossa igreja local levar mais a sério essa doutrina de santificação é preciso: _______________________________________    

Bases Bíblicas: Romanos 8.1-39; Lucas 18.9-14; Mateus 25.31-46

Durante os últimos anos de sua vida o Rev. Samuel Wesley, por 39 anos pároco de Epworth, dizia aos familiares e íntimos: “o testemunho íntimo é a maior prova do cristianismo”, e confessava-lhes que não tinha nenhuma dúvida sobre sua salvação. Mas se esta experiência e testemunho eram comuns na Inglaterra no começo do Século XVIII, a evidência nos é bem escassa.

João Wesley, filho do Samuel mencionado acima, começou a se preocupar coma a certeza da sua salvação, através do testemunho do Espírito, pelo menos em vésperas da experiência de Aldersgate, pois ele transcreveu no seu diário uma parte de uma carta que escrevera a um amigo anônimo provavelmente no mesmo dia da sua experiência. Ele confessou ao amigo que o espírito de Deus não testemunhava com o seu espírito que Le fosse filho de Deus (Rm 8.16). mas a carta que ele ansiava por essa certeza, aparentemente crendo que fosse possível.

Devemos reconhecer, antes de proceder mais na discussão, que muitos pensadores protestantes usam a expressão “testemunho do espírito” em um sentido bem diverso aquele referido acima. Para eles, a doutrina tem haver com a qualidade “autenticante” da verdade da Palavra de Deus. Como se sabe que aquilo que achamos registrado na bíblia realmente é a voz de Deus? A resposta seria: “O Espírito santo testemunha ao nosso íntimo que o é”. Não é necessário, portanto, que qualquer autoridade superior (como a Igreja) autentique para nós essa verdade. Em termos mais populares, essa idéia é expressa num hino muito popular: “Vencendo vem Jesus” (Nº 312 no Hinário Evangélico). Mudando um pouco a ordem e algumas palavras, encontramos o seguinte: “quando a voz do salvador chega à alma, ela logo reconhece que é a voz do seu Senhor” (Jesus). Por que a alma reconhece que é a voz de Jesus e não do homem, da mulher ou ainda do demônio? A resposta seria: “Porque o Espírito de Deus lhe revela isso”.

Como o leitor perceberá o conceito que acabamos de expor muito brevemente aponta para um outro tipo de segurança ou certeza – a da verdade da palavra de Deus. a doutrina que preocupa João Wesley (e que fora vivenciada pelo seu pai Samuel) tem a ver com a certeza da salvação. É essa última acepção do testemunho do espírito santo que nos ocupará durante o resto do presente estudo. Como vimos no estudo anterior, Wesley descreveu seu estado de graça em termos semelhantes aos de Paulo em romanos. Após sua experiência de fé viva em Cristo Jesus, Wesley pode testemunhar estar livre de condenação por estar em Cristo. Afirmou seu novo estado em palavras quase idênticas às de Paulo: “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou do pecado e da morte” (Rm 8.2). Uma boa parte do mesmo capítulo 8 de Romanos trata do significado de o remido ser filho de Deus. Valeria a pena ler com cuidado todo o capítulo. Destaquemos aqui apenas o final do verso 15 e o verso 16 por inteiro: “… Mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Abba, pai. O mesmo espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”.

No parágrafo central da narrativa da sua experiência religiosa, depois de afirmar ter recebido a fé (confiança só em Cristo), Wesley diz: “… uma segurança me dói dada que tirara meus pecados, sim os meus, e me salvou a mim da lei do pecado e da morte”. No trecho referido, ele não emprega o termo “testemunho do Espírito”; sua palavra é segurança. É muito evidente, no entanto, que se trata do mesmo conceito. Para que tenhamos plena compreensão da doutrina do Testemunho do Espírito é necessário termos alguns pontos bem claros. Tentarei dizê-los concisamente.

1. A experiência da segurança veio para Wesley como um acompanhamento da sua apropriação pessoal da fé (confiança) em cristo e as conseqüências dessa fé; a saber: a justificação (o perdão dos seus pecados) e o novo nascimento (a transformação íntima, fazendo-o vitorioso sobre o pecado). Wesley entendeu que o mesmo geralmente aconteceria com todos os que recebessem o dom da fé. Só anos mais tarde é que ele chegou a perceber que nem sempre aconteceria assim. Admitia que, em alguns casos, por motivos não bem claros, pessoas que dava toda a evidência de fé genuína e perdão e transformação que a acompanham não tinham um claro testemunho do Espírito. Mesmo assim, ele continuava a insistir que tal segurança era uma parte normal da experiência de todo cristão e cristã, não apenas para algumas poucas pessoas especialmente privilegiadas.

2. Mas o que é testemunho do espírito? Que é o Espírito testemunha com o nosso espírito? Conforme Paulo em Romanos 8.16, o Espírito afirma “que somos filhos de Deus”. É por isso que, por exemplo, no desenho apresentado no início do capítulo VII, o testemunho do Espírito só poderia vir depois da fé. Pois o espírito testemunha, com efeito, que já temos a fé salvadora, daí nos tornando filhos e filhas de Deus. • O testemunho do Espírito se refere a um estado atual, presente. Não é uma promessa de algo que deverá acontecer no futuro, mas de algo que a gente vivencia desde o momento em que recebe a fé. • Também não é a garantia de quem crê neste presente momento necessariamente vai perseverar até o fim da vida. Metodistas admitem a possibilidade de que alguém, mesmo tendo uma verdadeira e vital vivência com Cristo, possa cair da graça. O desfio então é marcharmos sempre em busca da maturidade!

3. Será possível testar o testemunho a fim de saber com certeza que o testemunho vem de Deus?

a) Há o testemunho do nosso próprio espírito, isto é, nós podemos fazer por nós mesmos uma auto-avaliação. Podemos comparar o nosso “antes” com o “depois”. Wesley, por exemplo, dava muita importância à paz com Deus que passou a gozar, em contraste com o antigo sentimento de culpa e de condenação, e também sua vitória sobre o pecado, quando antes quase sempre fracassava.

b) Há também o testemunho da comunidade da fé, o que é que a comunidade observa no novo convertido ou na nova convertida? Houve verdadeira mudança na pessoa para melhor? Seu relacionamento com o semelhante passou a ser regido pelo amor e solidariedade? Sua participação na própria comunidade de fé tomou novas feições? As disciplinas de oração e estudo da Bíblia passaram a ter um lugar na sua vida, etc?

c) Havia prova absoluta? Não, se se deseja uma prova matemática. Mas quando o próprio Espírito de Deus fala ao mais íntimo do meu coração que Deus me ama em Cristo e me adotou como filho, quando a minha consciência não me acusa, mas pelo contrário, me mostra a transformação que Deus realmente obrou em mim, e quando a comunidade de fé detecta em mim reais frutos desta fé, por que duvidar do Testemunho?

Para meditar / refletir / fazer / aprofundar

1. O grupo considera a doutrina do testemunho do espírito importante? Negligenciada? Mal-interpretada pela maioria? Praticada?

2. Para cada um considerar individualmente: • Você sente que tem essa segurança na sua vida cristã? • Gostaria de ter essa certeza? Conhece alguém que parece ter?

3. Formular com o grupo uma lista de testes para autenticar a experiência do testemunho do Espírito. Consultar os subsídios no estudo, mas incentivar o grupo a fazer uma lista que seja realmente do grupo.

4. O que significa para você ser filho(a) de Deus neste Brasil em que vivemos? A pessoa tendo a certeza de sua salvação agiria daquele modo nesta situação em que vivemos?

5. Analisar com o grupo a 3ª estrofe do hino nº 82 do Hinário Evangélico. É um exemplo da representação poética da rica obra do Espírito Santo. Este hino tem sido atribuído a Carlos Wesley, mas a autoria não é certa.

6. Analisar com o grupo o hino nº 341 do Hinário Evangélico. Este hino reflete bem a doutrina do testemunho do Espírito? A segurança mencionada neste hino é aquela que Wesley sentiu na sua experiência em Aldersgate?

7. Como diferenciar orgulho espiritual da firme segurança da nossa salvação em Cristo Jesus? Por exemplo: o fariseu em Lc 18.9-14 tinha certeza da sua salvação ou a segurança de que seu estado espiritual era satisfatório? Em Mt 25.31-46, quem tinha “certeza” de estar dentro dos princípios do Reino de Deus? fazer um confronto destes dois textos com a posição wesleyana de segurança conforme os subsídios do estudo.

O Novo Nascimento – Estudo Bíblico

Bases Bíblicas: Atos 22.1-21; Mateus 16.13-18; João 3.1-15; II Coríntios 5.17; Romanos 8.15; João 1.12, 8.32-26; Jeremias 31.33; Ezequiel 11.19; Salmo 19.12-13; Efésios 4.15; I Coríntios 3.1-2; Isaías 1.18; Lucas 19.1-10.

Um dos conceitos mais ricos de significado no que se refere ao processo da redenção humana é o do Novo Nascimento, também chamado de Regeneração. A passagem bíblica chave é a conversação entre Jesus e Nicodemos, em João 3.1-15. na Bíblia encontram-se outros termos que realmente se referem à mesma ação divina, como “nova criação” (II co 5.17), adoção como filhos e filhas de Deus (Rm 8.15, Jo 1.12); e ainda libertação (“a liberdade do filho de Deus”, Jo 8.32-36). Mencionamos este detalhe para que seja claro que há diversas maneiras igualmente legitimas para tratar da doutrina em pauta. No presente estudo, vamos desenvolver o conceito principalmente mediante o uso do termo “Novo Nascimento” e de termos congêneres.

Falamos no estudo anterior da fé como porta que dá acesso à justificação (perdão e consequentemente paz com Deus). Wesley costumava dizer que a justificação é algo que Deus faz por nós (for us, em inglês), assim estabelecendo um novo relacionamento entre Ele e nós; de réus passamos a inocente, para quem não há mais condenação. Mas conforme um hino que muito cantamos, “Tu não somente perdoa purificas também, ó Jesus” (Hino Evangélico, nº 36). Esse processo de purificação e transformação nós chamamos de “Novo Nascimento”. Nas palavras de Wesley, o Novo Nascimento é o que Deus faz em nós.

O Novo Nascimento, no sentido da transformação que Deus efetua no coração e na vida doa homens e mulheres, não é um ensino limitado ao Novo Testamento. É também um elemento da visão profética, explicitada por tais promessas como:

- Novo coração de carne em lugar do velho, de pedra (Ez 11.19);

- Nova aliança, não escrita em tábuas de pedra, mas escrita no coração (Jr 31.33);

- Pecados como a escarlata se tornam brancos como a neve (Is 1.18).

O tema, retomado no Novo Testamento, fala do avarento coletor de impostos, Zaqueu, transformado em benfeitor; do covarde Simão transformado em Pedro, a rocha; e de Saulo, o perseguidor, em Paulo, o apóstolo às nações, e de muitos outros.

Essa doutrina, tão evidente na Bíblia, foi muito enfatizada pelos pietistas, os quais, liderados por Spencer e Franke, reagiram contra a aridez da escolástica luterana no século XVII, com sua preocupação com a exatidão doutrinária, isso havia levado a uma ‘religião de cabeça’ e muito pouco “de coração”. Para os pietistas, o verdadeiro cristianismo começava com a experiência do Novo Nascimento e se evidencia pela vida transformada. João Wesley foi muito influenciado por esse aspecto do pensamento pietista.

Já descobrimos, nos dois estudos anteriores, que a experiência de Aldersgate afetou a maneira de Wesley entender a fé e a justificação. O mesmo teria acontecido com o Novo Nascimento?

Alguns estudiosos de Wesley entendem que não. Quem assim pensa, geralmente baseia sua posição em fatores como os que se seguem:

  • Sua criação em lar rigorosamente religioso, sob os cuidados espirituais da mãe Suzana;
  • A pureza do seu caráter ético e suas obras de caridade, mesmo antes de Aldersgate.       

Geralmente, quem segue essa linha acredita que o próprio Wesley realmente não deu grande importância à experiência de 24-05-1738, alguns a afirmar que ele nunca se referiu à experiência a não ser uma única vez, ou seja, a narrativa que publicou no seu diário.

Eu não posso concordar com esta opinião, pois, embora reconheça e valorize muito Wesley antes de Aldersgate, estou convencido que Wesley realmente na sua própria avaliação voltou de Geórgia com um virtual fracasso. E, certamente, o momento popular do Metodismo só surgiu após a transformação que ocorreu na vida de Wesley na ocasião de Aldersgate. Eu já examinei esta questão se Wesley falava da experiência depois; demonstrei que, sem dúvida alguma, ele mencionou o fato por diversas vezes ou diretamente ou por alusão, ele provavelmente se referia a esse marco na sua vida (veja Metodismo Brasileiro e Wesleyano, PP 90-93).

É verdade que no parágrafo 14º da sua narrativa ele não falou claramente do Novo Nascimento. Mas nos parágrafos seguintes ele faz diversas menções que deixam claro que uma transformação ocorrera na sua vida. Para mim é significativo que ele, clérigo ( e provavelmente o único clérigo presente numa reunião de leigos) confessou humildemente aos leigos aquilo que ocorria pela primeira vez no seu coração. Também é importante notar que agora, após a experiência, ele pode orar por aqueles que ele tinha como seus perseguidores (MT 5.44). Talvez o mais importante testemunho seja que ele descobriu uma essencial diferença entre seu antigo e o presente estado: antes quase sempre ele era vencido pelo pecado; agora ele sempre vencia.

Aqui vamos introduzir um paralelo com a estrutura do movimento metodista como elaborado por Wesley, o band ou “círculo”. Já tivemos a oportunidade para ver que, logo que as pessoas se despertavam para o verdadeiro arrependimento, estas pessoas já eram aptas a serem arroladas na sociedade da sua cidade e também numa classe. Enquanto continuavam como metodistas eles permaneciam como membros de sociedade e classe. Como já indicamos, uma das funções da classe era proporcionar condições propícias para a edificação e desenvolvimento da Vida Cristã dos membros, visando especificamente à apropriação pessoal da fé pelos mesmos.

Quem recebesse o dom da fé era tido como apto a tornar-se membro de um band, um grupo voluntário de apenas seis pessoas, do mesmo sexo, e um guia. O band era caracterizado pela franqueza absoluta no falar e no escutar. O raciocínio atrás disso era que os outros frequentemente nos conhecem melhor do que nós mesmos. Era norma que cada membro do band se obrigava a falar com total franqueza aos outros, inclusive das suas falhas e defeitos, e ouvir humildemente o mesmo dos companheiros ou das companheiras. Um band passava a ser uma espécie de guarda da alam dos demais.

A participação da vida nesse grupo sem dúvida contribuía à humildade dos seus componentes. O salmista pergunta: “Quem há que possa discernir as próprias faltas?”. E roga: “ Absolve-me das que são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo…” (Sl 19.12-13). Os integrantes dos Bands, os quais procuravam “falar a verdade com espírito de amor” (Ef 4.15, Bíblia na Linguagem de Hoje), não apenas contribuíram à humildade dos comparsas. Também mutuamente se ajudavam a descobrir preconceitos, incoerências e, quiçá, graves defeitos de caráter. Teriam, como veremos um pouco mais adiante, também uma parte muito importante na marcha dos integrantes do band em direção à perfeição cristã (maturidade).

Para meditar / refletir / agir / vivenciar / aprofundar  

1. O conceito “Novo Nascimento” é uma figura de linguagem que nos vem da Biologia. Examinar com cuidado os textos João 3.3-4 e I Co 3.1-2. Quais características do Deus da nossa salvação parecem ser características que normalmente identificamos como características femininas?        

 2. Hoje em dia há uma tendência de muitos em monopolizarem a expressão “nascido de novo”, dando à experiência uma ênfase totalmente individualista. Como deve os metodistas responder a essa situação? Recorrer de novo ao material neste estudo para aprofundar mais esta questão.

3. Em 1744, poucos anos após o começo do movimento metodista, João e Carlos Wesley se reuniram com diversos dos seus colaboradores para tentarem responder a esta pergunta: “Que podemos razoavelmente crer ter sido a razão pela qual Deus levantou o povo chamado metodista?” Notamos que Wesley via os metodistas como um povo e não apenas como certo número de indivíduos! Da reunião de 1744 emergiu a convicção de que Deus havia levantado “o povo chamado metodista” para “reformar a nação, particularmente a Igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre a terra”.

Não queremos sugerir que a auto-imagem dos metodistas se aplicava só a doutrina do Novo Testamento; tinha referência a toda a sua doutrina e vivência. O que estou sugerindo no momento é uma tentativa de examinar a doutrina do Novo Testamento usando a auto-imagem metodista como pano de fundo para isso.

4. Reformular a pergunta feita em 1744: Por que Deus levantou um povo chamado metodista no Brasil hoje? Que resposta seu grupo dará a essa pergunta?

5. Pessoalmente, você gostaria de pertencer a um grupo semelhante ao Band metodista em que há completa franqueza e sinceridade em amor? Um grupo assim seria uma ameaça para você ou seria um verdadeiro apoio para a vivência da fé?

Afirmações de Fé Contemporâneas 

Creio no Deus vivo,

Pai de toda humanidade,

que cria e sustenta o universo em poder e amor.

Creio em Jesus Cristo,

Deus encarnado na terra,

que nos revelou pelas suas palavras e atos,

pelo seu sofrimento com os outros,

pela sua vitória sobre a morte,

como Deus é e como a vida humana deve ser.

Creio que o Espírito de Deus está conosco

agora e para sempre,

e que podemos experimentá-lo na oração,

no perdão, na Palavra, nos Sacramentos,

na comunhão da Igreja e em tudo o que fazemos.

Orientações pastorais sobre o uso dos Dons do Espírito e outras práticas.

Dada a realidade humana, mesmo a renovação do Espírito, pode cair em desvios e abusos. “Sois tão insensatos que, tendo começado com o Espírito, agora acabais na carne? Foi em vão que experimentastes tão grandes coisas?” (Gal.3:3-4).

Paulo exerce uma função pastoral para corrigir os equívocos e exageros nas comunidades cristãs. Não teria feito, se não os houvesse. Os desvios são conseqüência da ignorância da Palavra e não observância das normas e da vida sacramental da Igreja. Paulo não tentou sufocar o movimento do Espírito. Mas corrigir os erros humanos, para que todos pudessem gozar da plenitude da vida, em Cristo, e para que pudesse haver crescimento na Igreja.

Dentre os desvios ou equívocos mais comuns, temos:

1)    Ênfase exagerada em certos dons espetaculares, em prejuízo dos meios de salvação e santificação.

2)    Mais ênfase nos dons do que no “Fruto do Espírito”.

3)    Grupos liderados por pessoas sem preparo doutrinário e espiritual.

4)    Confusão doutrinária traduzida por pessoas estranhas ao nosso meio.

5)    Interpretação particularizada da Bíblia. Uso de textos isolados.

6)    Angústia por não ter “Dons Espirituais”, particularmente o dom de línguas.

7)    Manifestação exagerada e distorções da experiência do Espírito.

8)    Preocupação excessiva com o espiritual, fugindo-se do compromisso social e comunitário.

9)    Abuso do aspecto emocional, sentimento de culpa, sentimentalismo doentio, sem produzir uma verdadeira conversão.

10)   Atribuição de fenômenos naturais ou psíquicos à ação do demônio.

11)   Apego exagerado a pessoas líderes. Fanatismo que pode ter conseqüências imprevisíveis, caso o líder venha a falhar.

12)   Advinhações e prognósticos, em lugar da profecia bíblica.

13)   Busca de bênçãos ao invés da busca de Deus.

14)   Maior autoridade à experiência e ao emocional do que autoridade a Palavra de Deus.

15)   Desobediência e menosprezo às autoridades constituídas pela Igreja, em nome da liberdade do Espírito Santo.

 É preciso estar atentos aos desvios para evitá-los e vivenciarmos uma experiência genuína de avivamento.

 Colégio Episcopal da igreja Metodista

Bases Bíblicas: Romanos 5.1-21; Lucas 15; Romanos 7.1-25; 8.1-2, 1.17; Habacuque 2.4; Efésios 2.8-9; Gálatas 3.11; Hebreus 10.38; João 3.16. 

No estudo sobre o arrependimento oferecemos um simples desejo baseado em um sermão de João Wesley, ou seja, a religião cristã representada por uma casa. A partir do presente estudo, deve começar a tornar-se mais evidente porque Wesley comparava a fé com uma porta. No seu entender o novo nascimento, o testemunho do Espírito Santo e mesmo a santificação são comparados ao interior da casa.

Sem descartar o desenho da casa, hoje queremos um esquema mais completo, o que pretende ser um resumo de todos os elementos essenciais da doutrina wesleyana da Redenção. O esquema, que representa o pensamento wesleyano como um círculo, servirá como uma revisão daquilo já tratado e uma previsão do resto que vamos tratar em toda esta série de estudos.

Por ora, bastará notar que alguns dos elementos são eventos que ocorrem num momento, outros são estágios ou processos. O arrependimento tem aspectos dos dois. Geralmente, há um momento marcante quando o Espírito permite que nós nos vejamos como pecadores, longe da casa paterna. Mas, como Filho Pródigo que reconheceu ter pecado contra o céu e perante seu pai, (momento) temos que enfrentar a longa e penosa jornada para casa (processo).

Nos estudos anteriores já examinamos os dois aspectos da criação (imagem de Deus e a queda), a graça preveniente. O arrependimento e a fé. Hoje consideraremos a justificação pela fé, assim como no capítulo anterior enfatizamos a fé, agora o foco será a justificação.

A justificação: doutrina típica da Igreja ocidental (Católica Romana e Protestante).

Talvez valha a pena notar que há dois grandes ramos do cristianismo: os orientais (ou seja, os Ortodoxos) e os Ocidentais (ou seja, Católicos Romanos e Protestantes). Os orientais enfatizam a divinização como o processo da redenção, enquanto os ocidentais tendem a ver a redenção em termos da justificação. Justificação deve ser notado, é um termo da jurisprudência, lembrando o juiz que justifica o réu.

A peregrinação espiritual de Martinho Lutero fora essencialmente à busca de um Deus que lhe fosse gracioso, pois Lutero percebeu que não lhe era possível fazer boas obras suficientes para agradar ou satisfazer a justiça do austero Juiz, Deus. Mas ele descobriu na doutrina da justificação pela fé a essência das Boas Novas de Deus. Não seria necessário que Le, o monge Martinho Lutero, pela mortificação do seu corpo, pelas horas infindas se confessando, pela quantidade de rezas feitas, satisfizesse a justiça de Deus. Bastava confiar sua vida nas mãos de Cristo, cujo sacrifício já era suficiente para satisfazer o pecado do mundo inteiro. Pelo contrário, a justificação de Lutero seria um meio da sua fé em Cristo e não naquilo que ele (Lutero) pudesse fazer.

Fora em sua intensiva busca na Palavra de Deus que Lutero havia achado essa palavra libertadora, mormente em Rm 1.17 e Ef 2. 8-9 (também HC 2.4, Gl 3.11; Hb 10.28).

 Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito. O justo viverá pela fé. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós  é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.

Essa redescoberta da justificação pela fé abriu caminho para um relacionamento totalmente diferente; isto porque agora ele não via mais em Deus um juiz implacável ou vingativo senão um Deus gracioso e cheio de amor. Não é de se admirar que Lutero chegasse a considerar João 3.16 como o evangelho em miniatura. Assim, a justificação pela fé veio a ser a chave para a interpretação luterana da Bíblia toda, e o fundamento teológico da Reforma Protestante como um todo.

É possível argumentar – como William R. Cannon já fez na sua interpretação da doutrina de Wesley – que a justificação pela fé também seja o cerne da teologia de Wesley. Outros, porém, percebem na perfeição cristã o centro em torno de que toda teologia de Wesley girava. Pessoalmente, tenho uma idéia um pouco diferente que será exposta mais adiante. Por enquanto basta dizer que Wesley é realmente protestante, pela importância que deu à doutrina. Isso tende a confirmar o que já observamos, a saber, que Wesley fora diretamente influenciado na sua experiência religiosa e na sua conseqüente compreensão da fé por Martinho Lutero.

Sem, portanto, ignorar a influência de Lutero sobre Wesley, examinamos agora a linguagem com que Wesley descreve o conteúdo doutrinário da sua fé assim adquirida. Ele diz ter recebido a segurança ou a certeza de que Deus “havia tirado os meus pecados, sim, os meus, e me salvara da lei do pecado e da morte”.

Ele tomava emprestada quase literalmente uma frase de Paulo aos Romanos, a qual mostra que Wesley, na sua própria experiência, havia ultrapassado a situação desesperadora de Paulo em Romanos capítulo sete “…o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” (7.18); “miserável homem que eu sou, quem me livrará do corpo desta morte?” (7.24). Ele citou apenas a última parte de 8.2, mas é quase certo que tinha em mente também 8.1: “Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus…”.

Como o Paulo de Romanos, capítulo 8, Wesley também se tornou vitorioso sobre o desespero de não poder praticar o bem e para ele não havia mais condenação (esta incapacidade é exatamente a situação do pecador que não pode fazer as escolhas que levam à salvação, como vimos nos estudos III e IV).

É inegável que a experiência de Wesley está na tradição de paulo em Romanos e de Martinho Lutero, mas Wesley não empregou o termo justificação e, sim, libertação. Provavelmente sua maneira mais típica de descrever a experiência (embora sem rejeitar o termo clássico “justificação”) é perdão. Para Wesley, o que realmente acontece é que Deus , qual o pai amoroso, perdoa e recebe de volta o filho, mesmo o filho pródigo, apaga as transgressões e estabelece um novo relacionamento baseado em amor. É assim que o próprio Jesus ilustra a transação. O Deus Jesus não é tipicamente, o juiz; Ele é pastor que busca até achar a ovelha que se perdeu,. A mulher que não descansa antes de receber a dracma perdida, o pai que anseia pela volta do filho e que faz banquete à sua volta.

Na mesma ocasião de Aldersgate, conforme seu diário, Wesley testemunha ter descoberto também critérios para testar a autenticidade da experiência, a saber, paz com Deus e vitória sobre o pecado. Estes critérios têm muito a ver com Romanos, capítulos sete e oito.

Romanos capítulo sete descreve a total incapacidade da pessoa sem Cristo para obedecer a Deus e agradá-lo. O resultado era, e tinha que ser, o desespero: “Miserável pessoa que sou…”. Mas para quem está em Cristo, perdoado dos seus pecados, nenhuma condenação há! O novo estado é o de paz com Deus. a antiga incapacidade de realizar a vontade de Deus, mesmo quando a gente o deseja ardentemente, é substituída pela vitória sobre o pecado. ETA segunda parte, claro critério da autenticidade da fé, se refere, na elaboração teológica de Wesley, ao Novo Nascimento, o assunto do nosso próximo estudo.

 Para debater / Esclarecer / aprofundar / fazer  

1. Com base neste estudo, formule em seu grupo a doutrina da justificação pela fé. Como ponto de partida, imagine que alguém lhe perguntou o que é essa doutrina. Formule uma resposta para essa pessoa.          

2. Pesquise de novo o primeiro estudo que apontou diversas fontes do nosso conhecimento religioso (razão, experiência cristã, a Bíblia, a tradição da Igreja, e a criação ou natureza). Na formulação que seu grupo fez da doutrina da justificação pela fé, quais destas fontes foram utilizadas? O grupo utilizou outras fontes? Utilizou todas essas fontes? Uma ou outra ficou mais em destaque?       

 3. O que revela a doutrina da justificação pela fé sobre a natureza de Deus? Por exemplo, um deus que fosse exclusivamente um juiz austero que só quer punir o infrator daria espaço para uma doutrina como a da justificação pela fé? 

4. Nossa compreensão da doutrina da justificação deve se limitar apenas ao perdão de Deus ou diz algo sobre a conduta social? Wesley e os primeiros metodistas tinham uma preocupação social ou apenas uma preocupação social ou apenas uma preocupação com a justificação individual?

Dízimo

A prática do Dízimo tem profundo sentido espiritual. Significa que aceitamos o convite de Deus para sermos sócios Dele. A você que é dizimista fazemos um apelo: precisamos muito da sua fidelidade. A você que não é dizimista, fazemos um apelo: torne-se um!

Queremos que sua vida seja abençoada, queremos que haja prosperidade em sua casa. Não protele mais: torne-se um dizimista e seja feliz!                                                                             (Domínio Público)

 O Batismo

 “Assim o distintivo batismo de Jesus foi o batismo do Espírito Santo”!

Jesus nunca batizou com água, Ele se poupou para poder ministrar o único batismo – o batismo do espírito santo. Nesse único batismo, está potencialmente a obra redentora. No batismo com água abandonamos e entregamos a Deus os nossos pecados; no batismo do Espírito nós nos entregamos a Deus. O primeiro é negativo; o segundo é positivo. Na renúncia de nós mesmos, nos pomos à disposição do Espírito. Nessa renúncia se afogam nossos interesses e capacidades. Daí se estabelece a união do homem com Deus.                                       Stanley Jones

A Fé Salvadora – Estudo Bíblico

Bases Bíblicas: Mateus 3.1; Marcos 1.15; Isaías 61.1-2; Lucas 4.18-19; João 1.14; I Coríntios 2.2; Gálatas 2.20; Romanos 5, 3.21-31.

Já chamamos a atenção para o fato de que os evangelistas Mateus e Marcos contam que Jesus iniciou sua missão com a austera mensagem de arrependimento. Assim como fora para João Batista o arrependimento um necessário preparo para a participação no Reino de Deus, cuja chegada ele anuncia (MT 3.1), também Jesus apregoava “arrependei-vos e crede no Evangelho” do Reino de Deus (Mc 1.15). A pregação de João Batista, como vimos no estudo anterior, foi uma pregação que exigia do ouvinte solidariedade com o oprimido, a renúncia do uso egoísta do poder e a prática da justiça, uma mensagem essencialmente profética. Lucas, que relata o anúncio do programa de Jesus na sinagoga de Nazaré onde ele leu Isaías 61.1-2, torna ainda mais explícita à natureza profética da obra que Jesus havia de realizar.

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres, enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18-19).

No desenho do início do capítulo anterior, o arrependimento (autoconhecimento e “fruto”) é o alpendre; fé é a porta da casa que representa a vida cristã.

Martinho Lutero, na sua longa e dramática busca por um “Deus gracioso” descobriu na Bíblia a doutrina da justificação pela fé. A Epístola de Paulo aos Romanos, que mais claramente expõe tão preciosa doutrina, foi considerada por Lutero como o mais importante livro da Bíblia inteira. Neste momento não vamos discutir a justificação (efeito da fé); vamos, sim tentar nos restringir à natureza da fé em si.

Wesley aprendeu de Lutero (orientado, sem dúvida, por Pedro Boehler, missionário morávio) a natureza essencial da fé salvadora, a saber, a confiança em Cristo só para a salvação.

Fé salvadora não é idêntica à crença

Este fato é importante porque o vocábulo fé é frequentemente entendido em termos de aceitação intelectual de uma proposição ou definição doutrinária, isto é, o consentimento à verdade da proposição ou da doutrina. Clareza doutrinária é, obviamente, muito importante.

Irineu, na sua luta contra os gnósticos no final do 2º século, elaborou uma célebre Regra da Verdade, na qual ele argumentou que o verdadeiro ensino de Jesus havia sido transmitido através da tradição apostólica. Um importante elemento desta tradição era a afirmação de fé que conhecemos como o Credo Apostólico. Irineu denominou esse Credo a Fé dos Apóstolos. A venerável afirmação de fé contém um resumo de ensino essencial na época sobre Deus, Jesus Cristo, o espírito santo, a Igreja, a Vida Cristã e as Coisas Finais. Fé, então, como um credo, seria a aceitação de certas declarações como fatos, como verdades.

Sabemos ainda, pela Tradição apostólica de Hipólito que foi costume no 3º século perguntar ao batizado a respeito de sua crença ou aceitação das afirmações contidas no Credo. Para o conhecimento pleno do leitor, transcreve o trecho pertinente na íntegra.

“Assim que desce a água o que é batizado, diga-lhe o que batiza, impondo sobre ele a mão: Crês em Deus Pai todo Poderoso? E o que é batizado responda: Creio. Imediatamente, com a mão pousada sobre a sua cabeça, batize-o aquele uma vez. E diga, a seguir: Crês em Jesus Cristo, filho de Deus, que nasceu do Espírito santo e da Virgem Maria, e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e morreu (foi sepultado) e vivo ressurgiu dos mortos? Quando responder: Creio, será batizado pela segunda vez. E diga novamente: Crês no Espírito Santo, na santa Igreja ( e na ressurreição da carne?) Responda o que está sendo batizado: Creio. E seja batizado pela terceira vez” (Citado da tradição Apostólica da Hipólito de Roma, Vozes, 1971 pp 52-53).       

É tentador continuar com essa linha de pensamento, mas para nosso propósito é mais importante perguntar: “Mas será que essa crença é idêntica à fé salvadora?”.

Fé como confiança

Martinho Lutero entendeu que a crença não é idêntica a Fé salvadora. João Wesley, na sua experiência na noite de 24 de maio de 1738, à Rua Aldersgate em Londres, realmente atravessou o alpendre e entrou pela porta da fé. É curioso que ele nem empregou a palavra “fé” para descrever sua experiência. Esse fato pode refletir a influência  de Lutero, pois Wesley vinha estudando  certos escritos de Lutero no período e, no momento da própria experiência, ele descreve no seu diário que “alguém lia no Prefácio de Lutero à Epístola aos romanos. Cerca de quinze para as nove, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração pela Fé em Cristo, eu senti que confiava em Cristo, tão somente pela minha salvação…”.

E mais que evidente que Wesley, como Lutero, traduzia a palavra fé pelo vocábulo “confiança”. (É significativo que pouco tempo depois dessa experiência, na mesma noite, João foi visitar seu irmão Carlos para contar-lhe da experiência. a primeira palavra que João proferiu foi: “Creio”!).

Não podemos, e nem devemos, eliminar todo o conteúdo intelectual da experiência da fé. Confiamos em Cristo – Cristo que é Deus encarnado (Jô 1.14), que morreu pelos nossos pecados (Paulo dizia aos coríntios que o conteúdo da sua pregação era Jesus cristo crucificado, 1 Co 2.2) e ressuscitou. A fé salvadora vai além de se crer na encarnação, na morte sacrificial de Jesus e na sua vitória sobre a morte.

Fé em Cristo é a entrega pessoal de nossa vida nas mãos de Cristo em confiança e obediência. É engajamento no seu projeto e na sua obra. É o estabelecimento de um relacionamento com Jesus tipo Eu-Tu, pelo qual não somos mais nós quem vivemos, mas Cristo que vive em nós (Gl 2.20). É através desta experiência, deste novo relacionamento, que passamos a ser uma nova criação.

Wesley iria escrever muito sobre a natureza e o conteúdo da fé mas ele nunca modificou sua posição básica que aprendeu através da experiência, a saber, que a fé é confiança em Cristo e só nele para a salvação!

Wesley cria que Deus oferecia o dom da fé a todos que, arrependidos, a buscassem. Não achava que era uma experiência rara e só para os especialmente favorecidos. Os irmãos Wesley haviam buscado a verdadeira fé em Cristo desde seu tempo de Oxford e durante sua missão em Geórgia, recebendo-a respectivamente no dia 21-05-1738 (Carlos) e 24-05-1738 (João). Eles logo descobriram que a experiência seguia se repetindo entre seus amigos e entre o povo em geral, depois de Jorge Whitefield começar a buscar os trabalhadores e os pobres no seu próprio ambiente, proclamando a mensagem de Deus ao ar livre. Os irmãos Wesley, não sem muito temor e tremor, logo seguiram seu exemplo, com resultados surpreendentes!

Como vimos, cada pessoa desperta pela pregação e que realmente se arrependia era arrolada como membro da sociedade e ainda de uma “classe” (grupo de 12 pessoas sob a direção de um guia ou líder) que, através do estudo da Bíblia, oração, disciplina e testemunho, não só visava à edificação religiosa e ética como também servia de grupo de apoio psicológico e material.

Como, vimos para se tornar metodista a primeira exigência era o arrependimento. Mas a própria estrutura do metodismo visava propiciar condições para que os arrependidos, já no alpendre, pudessem receber a fé viva em Cristo Jesus, a verdadeira porta da religião cristã.

Para aprofundar / Debater / trocar idéias / agir         

1. Examinar em pequenos grupos os seguintes textos bíblicos que falam da fé. Focalizar o aspecto da fé que o texto apresenta. Ao repartir as diversas ênfases que os textos apresentam, o grupo certamente notará uma rica variedade. Essa variedade não significa que um texto contradiz o outro, mas demonstra que temos elementos diversificados para uma compreensão mais rica e mais profunda da fé. Observação: estes textos são mencionados para facilitar o trabalho. O grupo pode pesquisar outros textos que falam da fé, se desejar.

Hebreus 11, Tiago 2.14-26; João 20.24-29; Mateus 8.23-27, 9.1-8, 9.19-22, 17.14-21; Lucas 7.1-10; marcos 9.14-29; Romanos 4.1-25.

2. Verificar no estudo algumas práticas da fé dos metodistas no tempo de João Wesley. Quais elementos desta prática poderiam nos ajudar na busca da maturidade na fé?

3. Examinar a seguinte definição de fé: “A fé é aquela crença da mente e confiança no coração, pelas quais se aceita Cristo Jesus como salvador pessoal”. O grupo concorda? Acrescentaria algo? Tiraria algo? 

4. Incentivar o grupo a tentar elaborar uma definição ou afirmação de fé para nossos dias. No momento de elaborar esta afirmação de fé procurem lembrar o “Equilíbrio Wesleyano” que oferece dicas. Por exemplo, para elaborar uma afirmação de fé a nossa razão pode ficar fora? É preciso considerar a experiência cristã e a experiência pessoal com Deus? Os documentos da fé e as tradições da Igreja devem ser levados em conta? A Bíblia tem algo a contribuir? Se observarmos com atenção a natureza e este mundo que Deus criou receberemos inspirações e mensagens de fé? 

5. Pesquisar no estudo o que foi feito com as pessoas despertadas pela pregação de Wesley e pelos contatos com o movimento metodista. Comparar isto com aquilo que está sendo feito na sua Igreja local em torno da recepção de novos membros. Qual procedimento é melhor? Como podemos aprender hoje das práticas do Metodismo nos tempos antigos?

Credo da Juventude Brasileira

Cremos no Deus, Criador e Solidário

Cremos em Jesus Cristo, Amor que se fez gente

Cremos no Espírito Santo, sopro de vida e criatividade

Cremos na Juventude

Cremos na coragem da Juventude de se mudar o mundo

Cremos no poder da imaginação e no engajamento da Juventude

Cremos na arte de viver a Fé

Cremos na esperança, na alegria e na beleza de sonhar

Cremos na força e na felicidade do amor

Cremos na solidariedade e na sua força renovadora da sociedade

Cremos no serviço a favor da vida e no amor ao próximo

Cremos no direito de todas as pessoas à cidadania

Cremos na luta apaixonada pelo direito à vida abundante

Cremos que agora e sempre é o momento de agir

Cremos na unidade

Cremos na diversidade

Cremos na justiça

Cremos na paz

Cremos que o nosso Brasil tem jeito!

 

                                                                                     Autor desconhecido

A Graça Preveniente – Estudo Bíblico

Bases Bíblicas: Gênesis 2:17, 3:10 e 5.4; Deuteronômio 30.11-20; Salmo 42.2; Josué 3.10; Jeremias 10.10; Efésios 2.1; I Samuel 14.39-45; Romanos 6.23, 7.24; Mateus 23.37: João 10.10, 14.6, 5.1-8; I Coríntios 15.21-22; Oséias 13.8; Lucas 15; João 3.16; Isaías 55.1; I João 4.9; Ezequiel 33.11.

Vimos que a Bíblia apresenta a criação do ser humano como ato culminante e mais sublime de todo processo, pois Deus criou homem e mulher à sua própria imagem e semelhança. Mas no exercício do seu livre arbítrio os humanos desobedeceram a Deus e foram expulsos do paraíso. Foram colocados querubins e uma espada flamejante “para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3.24).

Deus havia proibido ao homem e a mulher comerem da árvore do conhecimento do bem e do mal, advertindo: “porque no dia em dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). A narrativa bíblica, no entanto, deixa bem claro que não morreram fisicamente naquele dia. Foi depois do ato de desobediência que Adão e Eva criaram sua família Caim, Abel e Sete. O texto diz que adão viveu depois do nascimento de Sete mais 800 anos, atingindo uma idade de 930 anos ao todo (Gn 5.4).

Portanto, duas coisas devem ser ditas para completar esta parte introdutória. 

1. A morte na Bíblia é essencialmente separação de Deus, a fonte da vida. Na narrativa de G~enesis, esta morte é simbolizada, primeiro, pelo afastamento de Adão e Eva de Deus no jardim, motivado pela vergonha e medo (gn 3.10) e pela expulsão do jardim por Deus e a colocação da espada flamejante para guardar o caminho da Árvore da vida (Gn 3.24). Deus é a vida e a fonte da vida. Quem escolhe a Deus, escolhe com Ele a vida (dt 30.11-10). Quem rejeita a Deus e os seus propósitos, está escolhendo a morte. O plano para a Vida e Missão da Igreja Metodista reconhece este fato de maneira marcante, o que merece algum tempo do grupo para reflexão e diálogo.  

Era quase axiomático com os israelitas que seu Deus era um deus vivo e o autor da vida.

Daí frequentemente Ele é mencionado como o “Deus vivo”, pois é um Deus que age, especialmente em favor dos menos favorecidos (Sl 42.2; Js 3.10; Jr 10.10). Por isso também os israelitas prefaciavam seus mais solenes juramentos com a frase: “Tão certo como vive o Senhor…” (1 Sm 14.39,45).

 2. O segundo ponto a ser notado é que quem peca é, do ponto de vista bíblico, morto (Jesus emprega uma outra figura, muito expressiva: “Aquele que comte pecado é servo do pecado” – Jô 8.35). A clara intenção de Deus desde a criação era que todos gozassem de vida em abundância. Assim ele colocou a Árvore da vida bem no meio do jardim (Gn. 2.9). Mas, ao escolherem a desobediência, os seres humanos escolheram a morte. Este fato recebe considerável atenção nos escritos de Paulo.

- “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).

- “Ele vos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e pecados” (Ef 2.1).

- “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24).

Mas Paulo percebeu que na economia (Providência de Deus, Cristo poderia desfazer todas as conseqüências infelizes da desobediência de Adão). Não havia o mesmo Cristo dito “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao pai senão por mim”?  (Jo 14.6). O mesmo havia falado: “Vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10).

E, finalmente, pela sua morte e ressurreição, Deus efetiva a redenção de todos que nele crêem. “Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque assim como adão todos morrem, assim também serão vivificados em Cristo” (1 Co 15.21-22).

A conclusão é que, já que todos os seres humanos são pecadores por natureza por participarem do pecado original, todos não passam de cadáveres.

Como é possível um cadáver virar-se para Deus e nele encontrar a vida? No afastamento de Deus, quer do indivíduo, quer da sociedade, existe só morte.

Este cadáver vira para deus? A resposta é bem óbvia: É impossível! Cadáveres não se mexem. Era impossível ao paralítico à beira do tanque de Betesda lançar-se às águas sozinho, daí ter permanecido na espera por tantos longos anos (Jo 5.1-8). Ninguém pode salvar a si próprio.

Como sugerimos no estudo anterior, o pecado original é de tão grandes consequências que só a graça de Deus, ainda mais poderosa, é capaz de superá-las (veja Rm 5.20-21). Este, portanto, é o pano de fundo necessário para compreendermos a graça preveniente.

O que é graça preveniente?

A graça é sempre o amor de Deus não merecido por qualquer ato ou atitude da parte humana. Na situação que estamos descrevendo não poderia haver qualquer merecimento ou obra humana, pois o pecador é um cadáver, e cadáver é incapaz de qualquer ação. Mas a Bíblia torna evidente que Deus é sempre uma resposta ou um responso á  iniciativa divina. Deus é como a mãe galinha que junta os pintinhos debaixo das suas asas (Mt 23.37) ou a ursa que protege com fúria seus ursinhos que correm perigos (Os 13.8). Se nós o amamos, é por que Ele nos amou primeiro (veja I Jo 4.9, 19).

Características especiais da graça preveniente

No dizer de João Wesley, a graça de Deus é livre para todos e livre em todos. Seu amor é tão abrangente como o universo. Ele amou de tal maneira que deu seu Filho Unigênito (Jo 3.16). Ele busca diligentemente o perdido até achá-lo (Lc 15). “Vós todos os que tendes sede, vinde às águas” (Is 55.1). E as passagens poderiam ser multiplicadas.

O que fazer com as passagens que parecem indicar a predestinação? No mesmo entender, é inegável que o grande peso do ensino bíblico é um deus de amor e boa vontade para com todos e duma obra expiatória em Cristo suficiente para a salvação de todos os pecadores e todas as pecadoras. Wesley entendeu que, em casos assim, as passagens mais obscuras tem que ser interpretadas à luz das mais claras e óbvias. Por isso, ele foi forçado a rejeitar a doutrina da eleição (predestinação) que efetivamente limita o amor divino.

Não só a graça de Deus é livre para todos; ela é também livre em todos. Isto é, em nós mesmos, seres humanos que não passamos de cadáveres, afastados de Deus, por causa do nosso pecado. Mas, se é verdade que o cadáver não pode atingir – não pode ver, nem ouvir e nem falar – Deus não o abandonou! Sozinhos não podemos responder ao amor de Deus – mas o cadáver não está sozinho, pois Deus está com ele!

Graça preveniente e consciência

É provável que todos possuam, em grau maior ou menor, um senso do certo e do errado, ou seja, a consciência. Paulo observa que os gentios conhecem pela criação o poder e a glória de Deus (Rm 2. 14); daí “para si mesmo são lei” (Rm 2.14). Mas Wesley insiste que a consciência não é “natural”, por universal que possa ser. Não, o que popularmente se chama de consciência é a graça preveniente de Deus agindo na mente e no coração do pecador. Do exposto acima não estranhamos que Wesley rejeitou a predestinação. Wesley afirma que o pecador pode receber de boa mente a graça preveniente oferecida; nesse caso, Deus aumenta a graça, tornando-se cada vez mais insensível à presença divina – surda à sua voz, cega às suas bênçãos e às suas maravilhas e, naturalmente, muda no que tange à comunicação com Deus.

Finalmente, é a graça preveniente que torna possível o arrependimento e a volta do pecador e da pecadora a Deus.

Para trocar idéias / Refletir / aprofundar /  fazer 

1. O grupo realmente aceita a idéia de que a morte é conseqüência inevitável do pecado, ou ainda não tomou consciência da seriedade do pecado? Só que não leva a sério a idéia do pecado é capaz de continuar nos pecados sem se preocupar com as conseqüências. Quem leva muito a sério o pecado e pensa seriamente nos seus efeitos funestos, pode cair no desespero incurável. Que encontraram neste estudo para evitar extremos?  

2. O que a graça proveniente revela sobre o valor inestimável de cada pessoa humana? 

3. Incentivar alguns membros do grupo a falarem da sua experiência pessoal da salvação. Esta experiência confirma ou reforça o que o estudo apresentou a respeito da graça preveniente ou aponta para outras verdades? 

4. Como é que a vivência na Sociedade brasileira hoje afeta nossa compreensão da graça preveniente?  

5. Com o grupo, examinar estas afirmações. Verificar o que o estudo sobre a graça preveniente poderia contribuir para uma análise mais profunda da questão: 

  • O ser humano não presta mesmo – sempre foi ruim, é ruim agora e sempre será ruim.
  • O ser humano é essencialmente bom – um pouco de conselhos e instruções são suficientes e cada um é capaz de acertar tudo o que estiver errado na sua vida.
  • Deus deve estar muito decepcionado com nosso mundo tão atrapalhado. Por isso, nada fará para nos salvar se a sociedade não endireitar primeiro.
  • Errar é humano – todo mundo erra; portanto, não devemos nos preocupar tanto com o pecado ou seus resultados, pois todos estão na mesma situação.
  • O que está escrito está escrito! Deus já sabe que será salvo e quem se perderá. Seres humanos nada podem fazer para alterar aquilo que Deus já determinou.

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